A vantagem de ser brasileiro em coberturas de guerra

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Queria escrever muito sobre os bastidores dessa cobertura, mas temos trabalhado tanto, que não tenho tido tempo de passar aqui no Argumento. Mas quero dividir com vocês algo muito interessante que, de certa forma, se contrapõe a alguns textos um pouco críticos em relação a certos comportamentos do povo brasileiro que tenho publicado recentemente.

Ser brasileiro tem feito a diferença na cobertura dessa crise da Criméia. Chegamos a Kiev numa noite fria, na quarta-feira passada. Na cidade obviamente pró-Ucrânia, a pergunta clássica me foi feita várias vezes. “De onde você é?”, me indagavagam num misto de curiosidade e repreensão. A imprensa russa, naturalmente, não é bem-vinda na capital ucraniana. (Antes de vocês se perguntarem, nem todos os russos são loiros dos olhos azuis. Sim, muitos de nós poderíamos ser um deles!). A palavra Brasil abre um sorriso no rosto de quem pergunta e, às vezes, portas importantes pra construir nossas matérias.

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Estou trabalhando com um cinegrafista inglês, o Louis Blair, que fica encantado com essa recepção. Na maioria dos casos, ele tem se passado por brasileiro também. Claro, com a boca fechada. Ele não fala uma palavra em português.

Os momentos mais tensos que vivemos até agora foram em Donetsk, cidade no leste da Ucrânia, onde a maioria dos moradores tem o russo como primeira língua e uma forte ligação histórica e cultural com o país de Vladimir Putin. Foi nessa cidade onde presenciamos um protesto muito violento entre os manifestantes pró-Rússia e pró-Ucrânia. Tive fácil acesso aos dois lados graças a essa palavrinha mágica chamada “Brasil”. No meio da tensão depois do protesto, onde uma pessoa tinha sido esfaqueada e morta, uma ucraniana me dizia onde eu poderia comer um bom strogonoff, prato russo, que, assim como nós, eles também adoram.

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Entre Donetsk e Simferopol, capital da Criméia, fizemos uma viagem de doze horas de trem, onde fotografei essa personagem dos anos 80 (ou sera 70?) acima. Todos os voos foram cancelados, assim como a maior parte das viagens ferroviárias. Perto da fronteira, há muitos soldados e tanques camuflados, preparados para um cenário que é improvável, mas possível. Já na Criméia, um homem em trajes civis, provavelmente a serviço dos russos, entrou na cabine de quatro camas, que dividíamos com uma mãe e uma criança ucranianas/russas. Pediu os passaportes. Temi pelo meu colega inglês, já que a Inglaterra tem sido um dos países mais críticos das manobras da Rússia. Mas ao ver o passaporte brasileiro, percebi um sorriso no canto da boca, que o desarmou de quaisquer possíveis perguntas. Me devolveu o documento e foi embora. Abaixo, a foto da funcionaria da companhia de trem, olhando as tropas russas ao fundo.

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Na chegada, fui parado por um policial, que me pediu pra que abrisse a bolsa onde carregamos um tripé. Aos olhos de um agente de segurança, o equipamento que segura nossa câmera pode ser uma arma. Mas antes mesmo de ver o bendito tripé, ele já tinha relaxado ao saber de onde eu era.

Na Criméia, onde a imprensa ucraniana e norte-americana não são bem-vindas, também tive vários momentos que começavam com desconfiança e terminavam com sorrisos, mesmo que tímidos.

Ser brasileiro já tinha me ajudado em outras oportunidades. Mas agora, na cobertura da crise política mais grave deste século, sinto uma certa facilidade pra conversar com os dois lados. Pra um jornalista, nada é mais importante que isso.

Por Sérgio Utsch

Perfil de Sérgio Utsch

Sérgio Utsch no interior da Itália, onde gravava um programa sobre as origens do Papa Francisco.

Sérgio Utsch é o atual correspondente do SBT na Europa. O jornalista já trabalhou na TV Globo, onde foi repórter do Jornal Nacional e Jornal da Globo e desde 2005 faz parte da equipe do telejornal SBT Brasil. Ao longo de sua carreira fez a cobertura de grandes eventos, dos quais destacam-se os Jogos Olímpicos da China, Copa do Mundo da Alemanha e o conflito árabe-israelense. No ano de 2007 ganhou menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog pela série de reportagens Infância Roubada. O profissional possui o blog Argumento, no qual divulga textos sobre os bastidores de suas reportagens.

2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo artigo. O fato de sermos um país neutro que não almeja fazer mal nem denegrir ninguém ajuda bastante na nossa ótima reputação em vários lugares do mundo. Infelizmente, os problemas internos são grandes e as pessoas estão de forma generalizada cansada de tantas maracutaias no nosso meio político.
    Lhe desejo sucesso no trabalho e nas matérias a por vir.
    Abraço.
    Adalgo.

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