Repórter bom é repórter burro

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O título deste texto deve ter soado um tanto quanto estranho para muitos, principalmente para os que já procuraram vagas de estágio ou emprego na área jornalística e se depararam com os pré-requisitos básicos (fluência em inúmeros idiomas, português impecável, domínio de noções mais avançadas em informática, programas de edição, dentre outros).

Explico-me, ou melhor, quem explicará a frase acima é o experiente jornalista Ricardo Noblat, que em seu livro “A Arte de Escrever um Jornal Diário” afirma ter ouvido a afirmação de outro reconhecido profissional da área, Elio Gaspari. Segundo Noblat, “repórter burro é o que não tem vergonha de perguntar. Ele pergunta, pergunta, pergunta e retorna à redação com todas as informações de que precisa para escrever sua matéria”.

Se pensarmos bem, é exatamente esta a função do jornalista: apurar, apurar, apurar, checar, checar, checar, perguntar, perguntar, perguntar, e só depois, escrever e publicar. Mas acontece que muitos jornalistas, por preguiça, soberba ou mesmo por pressa, acabam achando que já sabem das coisas e portanto não precisam questionar. E é aí onde está escondido o erro.

O bom jornalista segue à risca o princípio do filósofo Sócrates: “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”. Realmente, os que não tem vergonha de perguntar, por mais idiota que possa parecer a pergunta, sempre estarão à frente dos “sabidos”.

Cabe aqui ressaltar que o “jornalista burro” do qual estamos falando não deve ser confundido com o “jornalista preguiçoso”, que vai para uma entrevista sem ter pesquisado nada sobre o tema e sobre o entrevistado, esperando que as perguntas caiam do céu. Um exemplo clássico desse tipo de “profissional”, podemos ver no YouTube: Rodrigo Amarante, integrante da banda “Los Hermanos”, ao ser questionado se lhe incomodava o fato de ser sempre lembrado pela música “Ana Júlia”, deu uma resposta educada, mas sem deixar de puxar a orelha do “jornalista”, que com certeza foi para a entrevista apenas com um conhecimento raso (e diga-se de passagem um tanto preconceituoso) sobre o grupo musical. Assista clicando aqui.

Feita a devida distinção, faço outra ressalva: nós não temos obrigação de saber tudo e entender de tudo. Exatamente por este motivo, como diz Noblat, “não temos de sentir vergonha de perguntar. O repórter burro é o mais inteligente dos repórteres”.

Resumindo, humildade e curiosidade são alguns dos pontos fundamentais para ser um bom repórter. Leia muito, estude bastante, mas acima de tudo, seja “burro” e pergunte. Só assim você poderá se tornar um bom repórter.

Por Emílio Portugal Coutinho.

4 COMENTÁRIOS

  1. Olá Emílio! Parabéns pelo blog. Acompanho há um bom tempo. Acabei de me formar no ensino médio e farei jornalismo. Suas dicas são sempre ótimas! Indiquei o blog para minhas amigas que também querem jornalismo. 🙂
    Abraços e sucesso!

    • Olá, Larissa! Tudo bem? Fico feliz em saber que gosta do que publicamos aqui na Casa dos Focas. Sempre nos preocupamos em oferecer um conteúdo interessante e atraente para os focas. Seja bem-vinda ao jornalismo e obrigado por indicar a nossa página. Acompanhe-nos também nas redes sociais (Face, Twitter, Insta e Gloogle+). Ah, você ouvirá parentes e colegas dizerem que a carreira jornalística não é boa, não dá dinheiro, etc. Em parte eles tem razão, não é uma profissão bem remunerada, mas ela te oferece mais do que dinheiro. Através dela você conhecerá pessoas, histórias e verá o mundo com outros olhos. Lembre-se sempre que se esse é o seu desejo ninguém terá o direito de lhe fazer abandoná-lo. O jornalismo é para quem curiosidade, humildade e vontade de aprender. Precisando, pode contar conosco. Até mais! Emílio Coutinho

  2. Que bacana Emilio o seu depoimento. Já passei dos 35 e já trabalhei como repórter e apresentador de uma TV (ECO TV) na região da Costa Verde no Rio de Janeiro, precisamente nas cidades de Paraty e Angra dos Reis. Todos os dias viajo de ônibus de Paraty a Barra Mansa (são 3 horas de viagem para chegar na faculdade mais 3 horas para retornar) para realizar o grande sonho de conseguir meu diploma de jornalista . Por já ter dois filhos, talvez deveria estudar outra área para ter conforto financeiro, mas suas palavras explicam muito bem, ser jornalista vai além da vontade de ganhar dinheiro; é uma atividade para contribuir para a promoção e o progresso das nossas comunidades. Suas palavras são um incentivo para continuar minha jornada. Abraço fraterno e sucesso sempre!!!

    • Olá, Flávio! Tudo bem? É um orgulho muito grande para mim saber que estou de alguma forma incentivando outros focas espalhados pelo Brasil. Lhe desejo todo sucesso do mundo em sua carreira. Nunca desista dos seus sonhos. Até mais! Emílio Coutinho

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