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As Perspectivas do Jornalismo Cultural segundo Rinaldo Gama

Logo no início de uma palestra sobre “As Perspectivas do Jornalismo Cultural”, promovida na última semana pela Fapcom (Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação), o jornalista e Doutor em Comunicação e Semiótica, Rinaldo Gama, fez duras críticas ao papel do jornalismo atual e à definição do jornalismo cultural. Ele, que é ex-Estadão – aonde trabalhou como editor do extinto caderno de cultura ”Sabático” – e ex-Folha de S. Paulo, discutiu o jornalismo cultural dentro da imprensa nos dias de hoje e os impasses que esse segmento enfrenta a partir das transições do jornalismo impresso para o digital.

Para analisar a expressão Jornalismo Cultural, Rinaldo mostrou a importância em dissecar as palavras antes de qualquer coisa. “Em uma definição simples, jornalismo pode ser a divulgação de fatos de relevância pública. Olhando para o tempo em que nós vivemos, em que a mudança na cor do cabelo de uma celebridade ganha a homepage de importantes veículos jornalísticos, a gente começa a colocar em dúvida se essa definição ainda faz algum sentido. Será que realmente tem relevância pública o fato de uma celebridade ter trocado de namorado?”, pergunta Rinaldo à plateia. “Quando você olha para o outro lado da expressão (Cultura), a coisa fica mais grave ainda. Existem definições de caráter antropológicos. Mas será que isso dá conta de explicar o que é cultura? Nos anos 60 foi muito divulgada a separação entre cultura erudita de cultura de massa. Mas será que isso tem sentido ainda hoje? Já dá para notar que é difícil trabalhar com essas duas partes nos dias atuais”, alerta ele.

Em confronto com a expressão utilizada para o segmento jornalístico, Rinaldo Gama se usa de uma frase do escritor e filósofo Umberto Eco, na obra Apocalípticos e Integrados, de 1964: As leis da comunicação são as leis da cultura. Para Rinaldo, a cultura e a civilização humanizam o homem; e o traço que caracteriza isso é a comunicação. “ Se jornalismo é comunicação e as leis da comunicação são as leis da cultura, então, o jornalismo é em si mesmo uma atividade cultural”. O jornalista ainda afirma que todo jornalismo que não for cultural, no sentido de nos fazer mais humanos, e toda vez que ele for praticado distante disso, não haverá exercício real do jornalismo.

Segundo ele, o jornalismo é cultura até mesmo, porque algumas dessas definições de cultura, quando não foram cunhadas pelo jornalismo, foram consagradas pelo jornalismo. De maneira que, o modo de apropriação do mundo, que é feito pelo jornalismo, é um modo cultural, por meio da comunicação. “Então, jornalismo e cultura seriam irmãos; teriam ligações genéticas”, conclui.

Legenda: Da esquerda para a direita: Rinaldo Gama, Pró-diretor Acadêmico, Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito e a Coordenadora do curso de Jornalismo e Professora Joana Puntel. (Renata Asp)
Legenda: Da esquerda para a direita: Rinaldo Gama, Pró-diretor Acadêmico, Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito e a Coordenadora do curso de Jornalismo e Professora Joana Puntel. (Renata Asp)

Ao falar da imprensa, Rinaldo se contém: “Não posso chegar a dizer que toda a imprensa se rendeu ao jornalismo que não é cultura, porque seria um exagero. Isso porque ainda existem suplementos dedicados à cultura. Mas passei por situações que me levam pensar nesse tipo de coisa”, conta ele. Durante a palestra, Rinaldo também lamentou o fechamento de tantos suplementos culturais e da revista Bravo, por causa do momento desfavorável dos veículos impressos.

“O jornalismo privilegia um tipo de cobertura que se distancia da cultura e vive uma fase de transição de plataformas”, afirma. De acordo com o jornalista, ainda sem respostas, diversos estudiosos se perguntam: “Essa revolução digital tem o mesmo peso da revolução de Gutenberg?”.

Impasses

“O que significa ser crítico de cinema, teatro, literatura, quando todos podem ser críticos de cinema, teatro e literatura?”, pergunta o jornalista no decorrer da palestra. Hoje concorremos com os blogs, redes sociais, etc. Mas para se destacar nessa realidade, de acordo com ele, nada se compara com a credibilidade de um grande veículo para trabalhar e fazer a sua crítica.

No jornalismo cultural, todos os espetáculos e segmentos de cultura podem ser abordados. Porém, existe uma discussão sobre a cobertura do jornalismo cultural. Rinaldo diz que há uma dicotomia que anda afligindo a cobertura do jornalismo cultural. “Noticiar e se pautar pelo que está saindo, ou trabalhar fazendo reflexões de caráter mais aprofundado?”. Ele diz que, infelizmente, a urgência sempre arrasta os veículos para a agenda.

Além disso, a oferta de pautas e tramitação constante de releases, convidando os veículos para cobrir eventos e divulgar tal assunto, coloca em cheque o editorial dos veículos de comunicação. “Ser microfone e alto-falante das assessorias, editoras e gravadoras pode trazer sérias complicações de natureza ética para a nossa profissão. A assessoria não pode ditar as regras”.

Aluno faz pergunta em microfone aberto ao final da palestra. (Renata Asp)
Aluno faz pergunta em microfone aberto ao final da palestra. (Renata Asp)

Microfone aberto

Alguns alunos da instituição de ensino aproveitaram o microfone aberto para fazer perguntas.

Aluno 1: Porque a resenha literária está tão fraca se o número de leitores parece aumentar?

Rinaldo Gama: Isso é uma coisa que eu talvez eu nunca vá entender. Isso sugeriria uma cobertura maior, mas mesmo com o Sabático, de oito páginas, você não tem ideia de como era difícil dar conta de uma demanda tão grande.

Prof. Joana Puntel: Qual a importância de haver uma disciplina de jornalismo cultural nessa época de mudanças?

R.G.: Para mim, o jornalismo que se dedica às artes, aos espetáculos e a reflexão sobre o processo que nos humaniza não pode ser ignorado. Ao falar de jornalismo cultural, estamos falando de jornalismo. Dentro de um currículo, essa disciplina iria além por conta de todas essas características tão marcantes.

Aluno 2: Qual o futuro do jornalismo impresso em época de se escrever menos e quais diferenças você observa no jornalismo cultural impresso e televisivo?

R.G.: Alguém já disse que, influenciado pela publicidade, o jornalismo tenha adquirido a arrogância da síntese. Você não pode falar tudo em cinco linhas. Pode dizer o que aconteceu em cinco linhas, mas não refletir o que aconteceu. É uma pena que o objetivo do jornalismo venha caminhando para ser o mais breve possível. Mas você varia o jornalismo de acordo com a plataforma. Na TV, o jornalismo cultural obedece o que o suporte exige.

Aluno 3: Como o resenhista e o crítico avalia a literatura fantástica?

R.G.: Esses livros foram feitos para entreter. Uma coisa é literatura e outra coisa é se valer da palavra escrita e da ficção para entreter. Nada condenável, a opção é do leitor. Eu, pessoalmente, acho que a vida pode ser muito curta para você passar se entretendo com coisas que não o tornarão mais humano.

Por Renata Asp.

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Perfil de Renata Asp

Renata Asp

A paulistana Renata Asp tem 22 anos e se formou em jornalismo no fim de 2012. Ela já trabalhou por dois anos no jornal Diário de S. Paulo e em uma revista do setor automotivo, segmento em que ela deseja se especializar um dia. Ela diz que procura ser mais sensível e questionadora para entender melhor o mundo, as pessoas e poder enxergar mais longe. Hoje ela é correspondente do Mural da Folha de S. Paulo.

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1 COMENTÁRIO

  1. Com os avanços tecnológicos, o homem se vê diante de um momento histórico em que as imagens produzidas por aparelhos como a televisão, o computador, a fotografia, o cinema e até mesmo os celulares e tablets, invadem a sua vida como um todo.
    Como observou o Prof. Murilo Jardelino da Costa, tradutor de A Escrita: Há Futuro para a Escrita?,do filósofo tcheco Vilém Flusser:
    “Vilém Flusser põe a nu o ato de escrever e o de receber o escrito, preparando-nos para adentrar com mais consciência no universo das novas tecnologias, avaliando o que perderemos e o que se modificará”. Em outro trecho o filósofo Flusser aborda como a escrita produzida por meio de máquinas (como os textos reproduzidos na tela do computador, anúncios ou legendas de filmes) é diferente daquela colocada no papel. “O que o filósofo explica é que, no novo contexto, em vez de escritores, há programadores; em vez do código alfabético, o código binário [junção da escrita e da imagem]; em vez de textos que se dirigem ao leitor, prescrições para as máquinas e, em vez de obras, programas de computador. Poderíamos, então, a partir do que ele diz pensar que temos e teremos dois tipos de escrita, ou o que desaparecerá será somente a escrita que necessita do suporte do papel?”, indaga Murilo.
    É isso aí Renata Asp!

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