Carta ao jornalismo

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Carta ao jornalismo

Sr. Jornalismo,

é com deveras estima que lhe escrevo; quando, na verdade, minha vontade era esbofetear sua cara toda até enchê-la de vergões e hematomas.

Mas acautelo minha raiva porque imagino o quanto você mesmo tem sofrido. E não lhe bato porque muitos já o fazem cotidianamente.

Afinal de contas, o que é mais seria, senão uma bela surra, classificar como JOR-NA-LIS-MO muitas das peças textuais de horror que lemos por todo canto?

Que estas linhas possam encontrá-lo com mais serenidade. Caso possa amenizar sua dor, gostaria de fazer um mea culpa como jornalista, usurpador do seu bom propósito como instituição-alicerce da sociedade democrática.

Envergonho-me porque tantas vezes minha preocupação maior é sair correndo da redação, “porque também tenho vida lá fora”, e não me atento a fazer uma checagem adequada de cada informação que vai construir a matéria que brota da habilidade da minha escrita. E também por isso: tantas vezes, esforço-me mais a provar que sei fazer belos jogos-de-palavra e sou mestre em estilo, relegando a um segundo plano o compromisso visceral em formular um texto conciso e que ajude a interpretar o mundo a uma maior parcela possível de pessoas.

Não quero, com isso, dizer que passarei a escrever de maneira chula. Coitado, seria outro belo tapa na sua cara, não?!

Quero aplicar-me com esmero na arte das letras, mas muito mais do que isso, quero que minha alma jornalística se deixe moldar pelo mundo, sempre polissêmico, sempre aberto a sentidos outros, a possibilidades sem-fim.

Comprometo-me a não mais olhar o mundo com olhos preguiçosos, a abandonar a pretensão de ir ao encontro dos meus entrevistados com a postura de iluminado. Não mais! Que renasça e se fortaleça em mim a postura daquele que se coloca como eterno aprendiz, que vasculha com entusiasmo e tem como única pretensão esgotar todas os questionamentos possíveis, intercalando conversas, farejando o que está sob o véu do “não dito” e deixando-se maravilhar pela beleza da cotidianidade.

Sim, que o dia a dia seja o meu grande valor-notícia! Que o critério de noticiabilidade mais venerado seja o bem-comum! Encontros e passagens que celebrem a vida e tenham como objetivo responder à pergunta: “Que legado esse texto pode deixar para quem lê?”

“Bad news are good news”. Por quê?

Atrevo-me a dizer que não quero construir um jornalismo assim, Sr. Jornalismo.

Nessa missiva, busco me reconciliar. Minha estima é pra lá de sincera.

Por isso, mesmo que meus editores e patrões teimem em falar pelos cotovelos que “más notícias vendem mais do que boas notícias”, faço um juramento pessoal de ter uma conduta que busque ir além dessa máxima. Aos poucos, construir, junto com meus colegas que também acreditam nesse ideal, um jornalismo que dê argumentos para cada um construir suas próprias opiniões, que seja menos dogmático e ajude a abrir os olhos para os acontecimentos, sempre abertos a mais do que uma interpretação.

Que mais bons contextos sejam aplicados às regras dos valores-notícia: que a amplitude e frequência saiam em busca dos tantos grupos que se reúnem para executar ações que têm impactos positivos no mundo. Um chega pra lá na negatividade e a entronização da positividade no seu lugar. Que o bem rotineiro ganhe suas páginas, sejam de papel ou virtuais, com uma clareza que não seja preguiçosa, e sim argumentativa, investigativa, curiosa!

Que a continuidade se faça também em torno dos bons propósitos e a composição seja feita tendo como baluarte o que ajuda o homem e a mulher a ser mais gente do bem.

Sr. Jornalismo, que você continue, sim, audaciosamente correndo atrás de esclarecer os desmandos e, inadvertidamente, cobrando uma conduta ilibada de quem lida com a coisa pública. É claro que as tragédias continuarão a ser relatadas, os desmandos noticiados e as maldades ditas, mas que nós, jornalistas, saibamos nos reinventar e ir para além do que temos feito até agora. Ao invés de meros informantes, possamos nos tornar agentes que incitem transformações positivas no mundo.

Sim, Sr. Jornalismo, sei que não é fácil. Para muitos, idealista, utópico, subjetivista ou até mesmo equivocado – onde ficaria a pretensa imparcialidade? O escambal! Se de nada tem servido até agora – ou melhor, tem sido bem utilizada pelos detentores dos grandes grupos midiáticos como argumento-resposta que serve ao bel-prazer de cada situação -, que a razoabilidade seja nosso novo grande ideal.

Razoabilidade que se mede com um xô preguiça e uma busca incessante por mobilizar em torno do que é bom.

Escrevo porque não quero mais vê-lo fustigado por tantos que já o tacham como “desnecessário”, “ultrapassado”, “profissão do passado”…

Sem nós, jornalistas, Sr. Jornalismo, você estará mesmo perdido.

E, se você se perder, que fim teremos nós?

Por Leonardo Meira

Perfil do Autor

Leonardo Meira

Gaúcho. 27 anos. Jornalista. Acredita que as grandes revoluções começam com o protagonismo dos indivíduos em suas próprias histórias. Mais ainda: tem certeza de que o trabalho de imprensa faz toda a diferença na construção de pessoas mais livres, críticas, audaciosas. Assim, ser jornalista é ter o potencial de incentivar mudanças que tornam o mundo um lugar transformador.

Formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, em 2008, já passou por redações de rádio, TV, jornal e web.

Atualmente, é repórter da TV NBR – a tevê do governo federal – e do programa de rádio A Voz do Brasil, além de também atuar como freelancer para veículos de imprensa em geral.

Já foi editor do jornal do Santuário de Aparecida e trabalhou como redator/tradutor no portal de notícias do Sistema Canção Nova de Comunicação. No Rio Grande do Sul, trabalhou na TV Cultura do Vale e no Jornal Ibiá, ambos da cidade de Montenegro. Em Santa Maria, atuou na TV Campus (canal universitário) e na produtora Linea Filme e Vídeos, além de ter sido pesquisador em grupos do CNPq e monitor da disciplina de radiojornalismo.

Está disponível para ministrar oficinas e palestras sobre jornalismo, comunicação e contemporaneidade.

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