Jornalismo não é trampolim para a fama, afirma Sérgio Utsch

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O jornalista mineiro, Sérgio Utsch, atual correspondente do SBT, atendeu ao pedido de entrevista feito pela Casa dos Focas no início deste ano e contou um pouco sobre sua experiência no jornalismo.

Sérgio já trabalhou na TV Globo, onde foi repórter do Jornal Nacional e Jornal da Globo e desde 2005 faz parte da equipe do telejornal SBT Brasil. Ao longo de sua carreira fez a cobertura de grandes eventos, dos quais destacam-se os Jogos Olímpicos da China, Copa do Mundo da Alemanha e o conflito árabe-israelense.

No ano de 2007 ganhou menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog pela série de reportagens Infância Roubada.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Casa dos Focas – O que lhe fez optar pelo jornalismo? Você já pensou em mudar de profissão?
Sérgio Utsch – Tenho e tive muitas dúvidas na minha vida. Menos essa. Sempre soube que queria ser jornalista. Nunca pensei em mudar.

CF – Quais os principais obstáculos que você teve que enfrentar durante sua carreira?
Sérgio Utsch – Muitos. Renderiam um livro, acho. Hoje, quase vinte anos depois do diploma, tenho noção do quanto eles foram importantes pra me amadurecer como profissional. Acho que o salário inicial de um jornalista é o primeiro obstáculo. Mas houve outros, como os editoriais, quando o entrevistado é ou sugere ser amigo do dono da empresa onde você trabalha, já houve também obstáculos com a polícia brasileira que, em muitos casos, é truculenta e pouco profissional, além do fato de lidar com um povo que tem o fator passional muito forte. As discussões no Brasil são sempre muito emotivas e pouco racionais. Hoje, eu vejo isso mais claramente. Meu principal obstáculo hoje em dia, no entanto, é provar ao mundo, aos meus colegas, a minha empresa e aos brasileiros a importância de entender um pouco o que se passa fora das fronteiras do Brasil.

Durante entrevista com a então candidata a presidência, Dilma Rousseff. Foto: Arquivo Pessoal.
Durante entrevista com a então candidata a presidência, Dilma Rousseff. Foto: Arquivo Pessoal.

CF – Quais são os pontos positivos e negativos de fazer telejornalismo?
Sérgio Utsch – Ter a imagem e o som ao seu lado são, sem dúvida, pontos fortes. São elementos que enriquecem e dão ritmo a história que você está contando. O negativo é o tempo. Não dá pra fazer mágica e contar uma história importante em 90 segundos, que é a média das matérias. Em muitos casos, a gente finge que explica e as pessoas fingem que entendem. Uma pena.

CF – Qual a reportagem que mais lhe marcou? Qual foi a mais difícil?
Sérgio Utsch – Foram muitas. Já fui profundamente tocado em reportagens rotineiras onde fui exposto a situações inesperadas. Mas não posso deixar de mencionar a cobertura do terremoto no Haiti, onde mais de 250 mil pessoas morreram. Vi e senti a morte como nunca antes. Nem a guerra que cobri me marcou tão profundamente. Até hoje, tenho o cheiro da morte na minha memória.

CF – Como é o trabalho de um correspondente?
Sérgio Utsch – Bem menos romântico e sofisticado do que muitos apostam ser. Acima de tudo, é um trabalho mais solitário do que o do Brasil. Mas é uma experiência fantástica, pela qual só tenho a agradecer.

Sérgio Utsch na Etiópia.Foto: Arquivo Pessoal.
Sérgio Utsch na Etiópia.Foto: Arquivo Pessoal.

CF – O que é necessário para ser um correspondente internacional?
Sérgio Utsch – É preciso ter vontade, falar alguns idiomas (acho que só o inglês já não basta) e, acima de tudo, gostar de História e Geografia. Mais importante que isso tudo é ter os pés no chão pra saber que há uma grande chance de as pessoas para quem você vai reportar não terem tanta noção sobre assuntos com os quais você lida diariamente. Daí surge a necessidade de ser didático, explicar, explicar e explicar pra que você espalhe o conhecimento e não simplesmente o deixe limitado a um grupo leitores/telespectadores/ouvintes.

CF – O que você pensa sobre as críticas que são feitas à jornalista Rachel Sheherazade por suas opiniões durante o jornal do SBT?
Sérgio Utsch – Acho compreensível o debate. Todas as pessoas tem o direito de discordar.

CF – Quais as diferenças que você sentiu entre o padrão de jornalismo da Globo e do SBT?
Sérgio Utsch – A Globo foi a minha escola, onde aprendi e me amadureci como jornalista de TV. O padrão da Globo é bem definido. No SBT, ainda há muito espaço para criação, para busca de novos formatos. Essa, na minha opinião, é uma grande vantagem.

Foto tirada durante a visita do repórter ao Kwait. Foto: Arquivo Pessoal.
Foto tirada durante a visita do repórter ao Kwait. Foto: Arquivo Pessoal.

CF –  O que o jornalismo lhe ensinou?
Sérgio Utsch – Tantas coisas, tantas! Mas uma delas é nunca afirmar algo do qual não tenho certeza e nunca assumir compromissos que não posso cumprir. Minha palavra e minha história são o meu cartão de apresentação.

CF – Que conselhos você dá para quem deseja ser um bom jornalista e também almeja se tornar um correspondente internacional?
Sérgio Utsch – Não sou bom de conselhos. Mas acho que qualquer cidadão que queira ser jornalista tem que ter noção de que jornalismo não é (ou não deveria ser) trampolim para a fama ou coisa do gênero. Nada contra quem busque isso, mas o caminho deve, na minha opinião, ser outro: o teatro, a teledramaturgia e outras tantas artes que requerem profissionais competentes. Jornalista tem que ter formação, tem que ler, tem que ter noção das coisas e, ao mesmo tempo, não pode ter medo de não saber quando não sabe. Ser jornalista, acho, é fazer parte de uma máquina que espalha conhecimento e que, com as novas tecnologias, tornou ainda mais complexo e importante o nosso papel.

OBS: A foto em destaque nesta matéria é de Sérgio Utsch no interior da Itália, onde gravou um programa sobre as origens do Papa Francisco.

Por Emílio Portugal Coutinho

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