Reflexões de uma estudante no último ano da Faculdade

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O dia foi cheio e cansativo. Com a ausência de um dos funcionário na empresa, o serviço foi dobrado. No fim do expediente, decido me dar ao luxo de sair 15 minutinhos antes, afinal, eu mereço chegar em casa um pouco mais cedo para tomar um banho gelado, descansar e assistir televisão pelo resto da noite.

Meus planos são frustrados por um bendito ônibus que insiste em não passar.

10, 20, 30, 40 minutos. A paisagem que eu tanto gosto de admirar e fotografar perde a graça. 45 minutos debaixo do sol é tempo ocioso demais para fazer uma reflexão sobre a minha vida: presente e futuro.

E uma triste conclusão: estou longe, muito longe da onde eu realmente gostaria de estar nesse momento. Mais 10 minutos de espera: será que existe de fato o lugar onde eu gostaria de estar? Pausa. Dúvidas. MEDO.

Sim, eu tenho medo. Tenho medo do futuro porque as estradas do hoje estão obscuras demais, difíceis demais. Quando entrei na faculdade, tinha a meta de ingressar no mercado jornalístico no começo do segundo ano. O que me prenderia? Morava com minha mãe e não tinha dívidas: era só alçar voo e ser feliz!

E acreditei piamente nisso por um mês depois de sair do emprego. Dois meses. No terceiro mês já estava desesperada – para quem trabalhava desde os 14 anos, ficar parada era uma tortura. As maiores oportunidades de estágio eram para alunos que já haviam concluído metade do curso. No próximo ano tentaria de novo, sem problemas.

Terceiro ano chegou com várias frustrações – e eu esperando o meu lugar ao sol. Até que embarquei em um projeto que me resgatou. A Sanatório Geral me faz crescer e me enche de orgulho e satisfação. Graças a ela tive mais alguns meses de paz.

Fim do terceiro ano. Comecei meu último ano de faculdade. “VIVO” de histórias e hoje faço exatamente o jornalismo que AMO e acredito: mas ainda preciso do emprego formal para pagar as contas, os gastos da faculdade e as aquisições para o futuro profissional.

Me concentrei em vários projetos: eles saciam meu coração e me fazem querer cada vez mais! Realmente gosto de lidar com cultura, com artes e com questões sociais. Estou realizada.

Mas em relação a sala de aula, fiquei para titia. Sou a única que não se jogou no mercado como estagiária de algum veículo tradicional.

Atualmente trabalho em uma sala: paredes, computadores e ar-condicionado. Mas não nasci para isso. Eu gosto de rua, de sol, de chuva e de movimento. Até minha outra formação (TST) tem a ver com isso: ir a campo, ter contato e ver com os próprios olhos.

Em um dos momentos onde mais me senti viva no ano passado, foi no litoral norte debaixo de uma tempestade, quando coloquei o pé na lama e passei uma hora em uma reserva indígena. Fui e vi. As picadas de mosquito e as roupas sujas foram as lembranças palpáveis da experiência que ficou guardada na memória – e eternizada em palavras e imagens.

Tenho sérias dificuldades em escrever uma história sem ter sentido a emoção do meu entrevistado. O cheiro da grama, o quadro na parede e a lágrima que escorreu sorrateiramente dos olhos do seu Antônio são coisas que não podem ser vistas através dos fios do telefone.

E esse é exatamente o meu medo. Medo do jornalismo que vou encontrar lá fora. Medo do que fizeram com essa nobre profissão que hoje fica enclausurada em redações fechadas: entre paredes, computadores e ar-condicionado.

Por todos os cantos chegam relatos de colegas com muito potencial, mas que precisam se contentar com as linhas telefônicas, e-mails e questões burocráticas. As boas sugestões de pautas? Se quiserem investir, que o façam fora do horário de trabalho.

No mundo do tudo ao alcance da mão, sinto falta do que eu ainda não vivi: um jornalismo onde lugar de repórter ainda era na rua.

Muito se fala de que a maior ameaça para a profissão é a internet e as novas formas e meios de comunicação. Discordo. Nenhuma tecnologia ameaça mais as redações do que o fator humano. Ou, no caso, a falta de contato humano.

Eu tenho muito medo. E isso me assombra. Tenho medo de que o que eu considero hoje como uma angústia por não estar estagiando se torne uma tendência da profissão. E embora eu nunca vá parar de investir nos meios alternativos de publicar histórias, tenho medo de que, mesmo já empregada em um veículo e trabalhando com o que amo, eu ainda consiga respirar verdadeiramente somente através desses meios.

Por Rafaella Martinez Vicentini

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– Lugar de repórter é na rua!

– O último passo. Depois, a rua!

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Perfil de Rafaella Martinez Vicentini

Rafaella Martinez
Rafaella Martinez Vicentini é karateca, técnica em segurança no trabalho e uma eterna apaixonada por livros, palavras e fotografias. Estudante do 7º semestre de Jornalismo da Universidade Santa Cecília, por amor, divide sua rotina entre várias atividades. Além do serviço formal como TST, é editora da “Sessão de Terapia” da revista digital santista Sanatório Geral de Artes Visuais e mantém um blog pessoal, o Pensamentos Soltos.

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