Trabalho dos jornalistas que cobrem a Operação Lava Jato é tema de documentário

0
16

Em “Jornalistas na Operação Lava Jato”, três estudantes de jornalismo de Curitiba documentaram o trabalho de seis jornalistas na cobertura da operação. Exclusivo para Casa dos Focas, Denise Becker descreve os bastidores dessa produção que revelou os desafios da profissão nessa grande cobertura.

Então estudante do 4º período de jornalismo, Denise atendeu ao pedido do professor de Telejornalismo, Regis Rieger, em agosto de 2016. A proposta inicial era produzir um telejornal e o professor disse à pupila que teria de montar uma boa equipe, com no mínimo sete integrantes.

Naquela mesma semana de agosto, a equipe já estava aparentemente pronta, eram seis colegas da faculdade. O professor marcou o primeiro encontro para dar as orientações. “Vamos fazer TV”, pensava o grupo todo animado. Mal sabíamos que televisão era muito mais do que aparecer falante, de microfone em mãos, em frente à câmera. “Repórter de TV tem que ter um bom texto e contar uma boa história”, disse Regis ao grupo.

A reportagem de Marcelo Canellas sobre “A Fome no Brasil”, exibida no Jornal Nacional, foi a escolhida do professor como modelo do que ele esperava dos pupilos. Nesse momento, a líder do grupo não imaginava o que se passava na cabeça de seus colegas. Na dela, brotaram as primeiras ideias e o texto já começara a ser tecido.

O professor foi enfático ao dizer que apenas um da equipe seria o repórter e que o trabalho que menos aparece, por trás da câmera, é fundamental para o contexto do trabalho. “Demanda uma produção comprometida e responsável”, alertou. Ele pediu as propostas de pautas para a produção e ali surgiram vários assuntos, mas nenhum havia atraído sua atenção.

Imaginando uma reportagem especial, Denise fez proposta de cobrir a Lava Jato. Regis disse que teria de ser algo original. “Lava Jato a imprensa já cobre. O que vocês trariam de diferente sobre esse assunto?”, indagou. Em casa, a pupila mal dormia e a cabeça fervilhava de ideias. Lembrou-se de uma entrevista realizada por ela com o repórter Vladimir Netto, que escreveu um livro sobre a Lava Jato. Ele se preparou muito, estudou, leu vários livros antes de começar a escrever.

Novamente reunidos, dos seis a equipe ficou com três integrantes, até o final. O que era para ser uma reportagem especial para o telejornal, se tornou um videodocumentário. Para começar essa produção, os estudantes foram à entrevistas coletivas, se credenciaram, reservaram equipamento na faculdade, correram contra o tempo. Acompanhar uma cobertura tão dinâmica, requer estrutura, que eles não tinham. Tudo conspirava contra. Mesmo assim, insistiram. Foram reunindo imagens, criaram o grupo #lavajatinho no WhatsApp e ali organizavam tudo. Isso incluiu sábados, domingos e feriados, além das madrugadas sem dormir.

Ousadia e coragem foi o mote para Denise conseguir as entrevistas com os jornalistas: Lenise Aubrift Klenk e Thaíssa Martiniuk, repórteres da Band News FM Curitiba; Isabela Camargo, Globo News; Christianne Machiavelli, assessora de imprensa na Justiça Federal do Paraná; Vladimir Netto, TV Globo Brasília; e Kelli Kadanus, repórter do jornal Gazeta do Povo. A estratégia foi fazer contato por Facebook via inbox, explicar a pauta e torcer os dedos para que jornalistas tão imersos em seus ofícios, dessem ouvidos à proposta.

E eles colaboraram. Todos. A partir da primeira entrevista, as outras foram se encaixando, porque um jornalista abria caminho para o próximo contato. Foram quatro meses de apuração, seis horas de decupagem das entrevistas, edições e mais edições para chegar aos 10’ 59’’ sugeridos pelo professor. Nesse período, entre uma entrevista e outra, o tempo foi passando e outubro nos dava as boas vindas com um presente inesquecível: a cobertura da prisão do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e sua chegada na cidade.

À época, Denise participava da Semana Estado de Jornalismo, em São Paulo. De repente, o visor do celular acende e as mensagens não paravam de chegar no grupo de jornalistas, o qual ela conseguira se infiltrar. “Eduardo Cunha foi preso e deve chegar às 16h45, acompanhado pela Polícia Federal, no Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba”.

No mesmo instante ela acionou o professor, o repórter cinematográfico do grupo, Kevin Capobianco e a repórter da vez, Mariana Becker, caloura de jornalismo. Foi seu primeiro contato com a reportagem. De longe, Denise passava as instruções para os dois. Deu tudo certo naquele dia 19 de outubro de 2016. O professor autorizou a retirada da câmera, tripé, microfone e demais equipamentos, Kevin e Mariana se deslocaram numa agilidade incrível. Mas ainda havia um impasse.

Para onde ir. Aeroporto ou superintendência da PF? A decisão mais acertada foi a superintendência. A dupla chegou, se posicionou junto aos outros colegas da imprensa. O mundo inteiro estava lá naquele dia e os dois realizaram um trabalho digno de grandes repórteres. Pegaram imagens exclusivas, fizeram entrevistas, enredaram-se na trama e nos fios dessa história. Foi um dia inesquecível para o trio.

No documentário, os autores contam como foi para os jornalistas entrevistados realizar essa cobertura inédita, de que forma se prepararam, os ganhos e perdas, algumas aventuras e as perspectivas profissionais. São ensinamentos preciosos para os focas.

Meio século, no mínimo, é a soma das experiências profissionais de cada fonte entrevistada. É o jornalismo sendo contado sob a perspectiva do repórter de rádio, televisão, impresso e online. A abordagem da Operação Lava Jato a partir do olhar do jornalista que realiza a cobertura, levou o documentário ao 12º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo (2017). O trabalho dos estudantes foi um dos oito selecionados e apresentado no “Mostre e Conte, 1 Reportagem em 10 Minutos”, promovido pela Abraji.

Assista ao vídeo-documentário clicando aqui.

Por Denise Becker.

Perfil da autora

Denise Becker (46), é estudante de jornalismo, 4º ano. Se dedica à pesquisa científica e estuda os rumos do jornalismo na era digital. Com trabalhos publicados na Intercom e na Revista AlterJor, da USP. Em 2017, esteve na Colômbia, apresentando um artigo sobre a Agência Pública, na International Association for Media and Communication Research (IAMCR). A reportagem “Oito entre dez casos de violência contra criança acontecem em casa”, foi finalista do prêmio Expocom (2017), região Sul. É idealizadora do ‘E Agora, Josélia?’, programa de rádio web e página do Facebook, que se dedica a contar a história da mulher na ciência e no jornalismo. Recebeu duas vezes consecutivas o ‘Prêmio Sangue Novo de Jornalismo Paranaense’, 1º lugar (2016) e 2º lugar, (2017) como melhor grupo de pesquisa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui