O Jornalismo morreu?

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(Foto: Pixabay)
(Foto: Pixabay)

Recebo uma sugestão de tema para um texto que possivelmente será publicado na Casa dos Focas: “O Jornalismo morreu?”.

Posso me dar mal, mas, sim, morreu, responderia.

“Rezem-lhe por alma”, diria minha ilustre e maravilhosa avó materna, Dona Olinda Borges Louzada, uma portuguesa com toda a certeza, aparentada, como contava, lá dos Borges do Peso da Régua. O Peso da Régua é uma cidade no distrito de Vila Real, situada junto ao rio Douro e que é considerada a capital da região demarcada na qual é produzido o mundialmente famoso Vinho do Porto. Fica mais ou menos perto da cidade do Porto. Sim, o Porto Galo, que deu nome ao Portugal.

Certamente o ilustre leitor já estaria morrendo de curiosidade neste momento, querendo saber mais de minha avó, e não só dela, como do Peso da Régua, do Porto, do Porto Galo, do vinho do Porto… Meu Deus, quanta história.

Porém, rezem por alma do jornalismo, pois já não temos ninguém, ou até temos, mas poucos jornalistas para contar histórias como essas, nascidas e vividas pelo povo daqui e dali e de lá, Trás Os Montes, ou coisa que o valha. Campina Grande, Recife, Jundiaí, Florianópolis, Porto Alegre. E por que não Montevidéu?

Sabia que o nome Montevidéu significa ou é a abreviatura da frase: “Monte VI do Este?” Monte-VI-Do-Este – Montevidéu… Parece bobagem, mas é história. E quanta história se tem por aí. História portuguesa, história brasileira, história uruguaia, argentina, americana, inglesa, francesa. Histórias de gentes, pois gentes são loucas para fazerem histórias que serão ou deveriam ser contadas.

Reze por alma do Jornalismo e grite: Viva! O Jornalismo está vivo. As gentes e as histórias continuam por aí, o que falta são jornalistas para contar. Isso aí. O que se precisa são jornalistas, os reais pesquisadores, buscadores e contadores de histórias. O público, o povo em geral, ama ouvir histórias, saber de histórias, ler histórias.

Por mais que o mundo tenha mudado as pessoas continuam curiosas. As pessoas adoram saber de pessoas. As pessoas adoram conhecer histórias de pessoas. Gente que sofreu, gente que passou o que passou, gente que fez, gente que criou, gente que se deu bem na vida, gente que se deu mal na vida, gente que virou artista, gente que falou de gente, gente que é gente, enfim, gente e mais gente querendo saber de gente. Haja jornalistas para contar.

A dúvida agora é saber de quem é a culpa e eu vou logo dizendo que muito possivelmente já não se faça jornalistas como antigamente. Ainda que o mundo esteja cada vez mais cheio de jornalistas e eu digo cheio no sentido da quantidade e não da atividade, claro. Hoje em dia todo mundo tem celular. Hoje em dia o celular fotografa, o celular serve para escrever, o celular serve para guardar cenas, palavras, situações na memória, o celular é mais que um braço direito, é o corpo inteiro de quem quer comunicar ou se comunicar.

E todo mundo pode virar e muitos viram repórteres. Aconteceu a pessoa fotografou, a pessoa filmou, a pessoa mandou para um veículo de imprensa, TV, rádio, jornal, revista, o diabo e pronto. É só acrescentar os dados na velha e infalível tabela: quem, quando, como, onde, por que, o que. “Zé da Silva estava dirigindo o seu veículo pela avenida São João quando teve a sua atenção desviada e o carro se projetou contra um poste. Por sorte ninguém se feriu. Na foto o estado do carro e o José todo triste e tal e coisa…”.

Garanto que isso vai ser visto ouvido, falado, comentado por uma porção de gente. Se teve morte terá mais gente interessada. Se parou o trânsito a coisa vai aumentar de importância, se o carro pegou fogo, se o fogo se alastrou e por aí vai, daqui a pouco a gente terá uma tragédia nacional. Ali, com imagens e texto transmitidos através de um simples celular por alguém que tenha um mínimo de noção de Jornalismo.

Rezem-lhe pelo sucesso, diria minha avó, o Jornalismo não está morto coisa nenhuma. O Jornalismo está morto quando fica nas mãos de quem acha que o povo está a fim de assuntos mais nobres, coisas do tipo “o que o presidente Trump costumava fazer antes dos almoços que digeria nos tempos das vacas magras”, se bem que o Trump nunca teve vacas magras ou coisa parecida. Ou, então, assuntos do tipo Putin reúne seus assessores para ver o que se passa do outro lado do Atlântico, assuntos esses todos eles elevados à enésima importância para o povo. Só que o povo, tirando uma meia dúzia de três ou quatro, como diria um certo presidente, não está nem aí com a cor da chita.

O povo sou eu, o povo é você, o povo somos nós que queremos saber as coisas mais diretas da vida, as coisas que nos dizem respeito, queremos viver a vida, saber da vida dos outros, das fofocas, do lero-lero do dia-a-dia, do crime que aconteceu no bairro, da discussão entre marido e mulher, enfim, notícias que são muito mais próximas e que interessam a todos na medida da sua curiosidade.

Jornalista é contador de história, não é comentarista. Tem que ir atrás da notícia que fala do Zé e do Mané, da Maria e da Olga. Quem casou, quem nasceu, quem arrumou emprego, quanto custa viajar para a Europa, quanto você precisa ter no bolso para ir assistir ao jogo do Corinthians ou do Palmeiras e coisas do dia-a-dia. Lamentavelmente ou por sorte, sabe-se lá, o povo não é intelectual e nem quer ser. O povo quer ser povo. E quem lê ou lia jornal era o povo. O povo comprava o ‘Notícias Populares’ para saber dos crimes. Ou o ‘Diário da Noite’, antigo, ‘O Dia’, o ‘Extra’ lá do Rio de Janeiro para saber do dia-a-dia, da hora-a-hora, da fofoca.

O povo já não tem esses jornais. Os jornais falados ou televisados ou que nome tenham, também pouco apresentam de coisas que bolem com o sentimento do povo. E quando aparece uma reportagem mostrando a mãe que conseguiu emprego para sustentar a filhinha deficiente vira comoção. Quando aparece a reportagem de alguém que salvou alguém da morte, quando alguém que quase morreu para salvar um cão, essas coisas, quando se fala do povo, coisas do povo dão uma audiência fantástica. Porém, os ditos “mestres” do Jornalismo condenam essas reportagens. Para eles os jornalistas têm que falar ou escrever sobre coisas mais sérias.

Me arrisco a dizer que o jornalismo como era, vibrante e respeitado começou a morrer quando alguns “mestres” e “doutores” que nunca haviam entrado em uma redação de jornal ou revista, ou rádio ou emissora de TV começaram a dar aulas nas faculdades. Teorias e mais teorias sobre as teorias no geral. Ensinaram o que não aprenderam nas ruas. Muita teoria e pouca prática. A lição que que não deve ser esquecida diz que a rua é que ensina a fazer jornalismo.

Você quer ser jornalista? Desperte todos os seus sentidos e vá pra rua, filho. Agora.

P.S. Sei que você ficou curioso com a história da minha avó Olinda, com o Peso da Régua, com o Porto, o Vinho do Porto, o Porto Galo (que acabou virando Portugal, com o galinho como símbolo do país…) e também com a outra história de Montevidéu, que representa o sexto monte do Este… Leitor é assim mesmo, fica doente quando alguém começa e não termina o texto que ele estava lendo. Viu como o Jornalismo é fascinante? Prometo que qualquer hora eu retorno à Casa dos Focas e conto as duas histórias começadas. Jornalismo é isso, mano, despertar o leitor, chacoalhar o leitor, encantar o leitor.

Por Edgard de Oliveira Barros

Perfil de Edgard de Oliveira Barros

Edgar de Oliveira Barros

O professor Edgard de Oliveira Barros está há 40 anos no jornalismo, tendo iniciado sua carreira na redação dos Diários e Emissoras Associadas, a maior cadeia de jornais, emissoras de rádio e de televisão que o Brasil já teve.

É bacharel em Direito pela Universidade Mackenzie, foi repórter de jornais Associados, tendo trabalhado também nas extintas rádio Difusora e TV Tupi. No meio do caminho teve a Propaganda e Edgard trabalhou na MPM Propaganda, para depois fundar a sua própria empresa de publicidade, através da qual ganhou vários prêmios.

Durante 10 anos foi diretor de redação do extinto Diário Popular. Deixando o Diário Popular começou a dar aulas na FACOM/UniFIAM no ano de 1986.

Criou o jornal Imprensa Livre na cidade de Atibaia, com circulação regional. Semanário, o jornal passou a diário tendo inclusive implantado seu próprio parque gráfico com modernas rotativas. Trabalhava no mínimo 18 horas por dia e todos os dias. Cansou.

E faltou dinheiro. Parou o jornal e voltou a dar aulas, sua paixão, na FIAM. Publicou três livros de crônicas e um livro-manual de Jornalismo dedicado aos alunos da escola: Quem? Quando? Como? Onde? O quê? Por quê?.

Acompanhe os textos do Professor Edgar publicados na página Mixtura Fina.

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