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A grande reportagem ainda não acabou!

A voz da experiência sempre fala mais alto e, neste caso, vale a pena parar para ouvir, ou ler, já que se trata de um texto escrito em um blog. Na penúltima conferência do “6º Curso Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter”, do Projeto Repórter do Futuro da OBORÉ, os estudantes conversaram com o renomado jornalista Audálio Dantas, que recentemente lançou o livro “Tempo de Reportagem” em que apresenta às novas gerações algumas das matérias que marcaram época no jornalismo brasileiro e nos fazem refletir sobre a difícil tarefa de contar histórias.

Com um currículo extenso e cheio de prêmios – em 1981 recebeu, por exemplo, o Prêmio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU, a Organização das Nações Unidas – Audálio é atualmente diretor-executivo da revista Negócios da Comunicação e membro dos conselhos do Ranking J&Cia – Os Mais Premiados Jornalistas Brasileiros, da União Brasileira de Escritores (UBE) e do Instituto Vladimir Herzog e, segundo ele, a grande reportagem não acabou.

Livro Tempo de Reportagem, escrito por Audálio Dantas.

Embora o dia-a-dia das redações seja cada vez mais conturbado, textos elaborados e bem apurados não estão com os dias contados. O que dificulta o trabalho daqueles que se propõem a fazer grandes reportagens é o espaço direcionado pelos veículos de comunicação e suas diretrizes editoriais que, quase sempre, privilegiam notícias e reportagens rápidas, na ânsia de veicular mais rápido a informação.

“O repórter continua”, afirma Audálio. “O caso da Eliane Brum é típico, grande parte das matérias que ela fez foi no Zero Hora em Porto Alegre, quando ainda se podia fazer este tipo de reportagem. Vem muito do repórter que acredita que tem algo, e vai e faz. O espaço e o tempo é que estão cada vez menores, mas não acabou. Ainda existem bom repórteres fazendo grandes reportagens”, destaca o jornalista.

A questão, segundo Audálio, é que em alguns casos é preciso encontrar tempo na agenda fora do expediente. “Sempre foi assim. No dia-a-dia você precisa dar conta de várias matérias, mesmo para quem trabalha em revistas em que, tradicionalmente, se tem mais tempo para produzir as pautas. Se você quer contar uma boa história, precisa apurar e escrever o seu texto mesmo que seja fora do seu horário de trabalho. Às vezes eu ficava até três semanas, três meses, para fechar uma reportagem”, relembra o veterano nos tempos da revista Realidade, marco do jornalismo em que se tinha espaço e apoio inclusive financeiro para reportagens de fôlego nas redações do país.

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Audálio Dantas tem 84 anos de idade, nasceu em Tanque D’Arca em Alagoas, em 8 de julho de 1929. Começou a carreira como repórter da Folha da Manhã, antiga Folha de S.Paulo, passou pelas redações de Folha da Noite, das renomadas revistas O Cruzeiro e Realidade, além de diversas outras revistas da Editora Abril, como Veja, Playboy e Quatro Rodas, e foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP) em 1975 – época em que o país passava pela ditadura e em que foi corajoso protagonista da denúncia do assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela Ditadura Militar, um marco importante no processo de redemocratização do País.

Mas, mesmo para um veterano, contar uma história não é tarefa fácil, e quando se é “foca”, então, as situações podem ficar ainda mais difíceis. O que não significa que os novatos no jornalismo devam se deixar vencer pelo cansaço ou pelos possíveis maus olhares dos entrevistados. Certo dia, Audálio foi escalado para cobrir o lançamento de um livro: “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Isso foi em 1956. Na ocasião, o escritor não respondeu às suas perguntas, mas isso não o impediu de escrever a reportagem e ainda por cima ganhar o primeiro prêmio de sua carreira em um concurso interno da Folha.

“O episódio serve para demonstrar que o repórter deve insistir na pergunta até o fim. E se não conseguir a resposta direta, deve buscá-la por outros meios. Foi o que fiz no caso de Guimarães Rosa, que talvez não quisesse arriscar dar uma entrevista a um repórter visivelmente novato, com a palavra “foca” escrita na testa. Mas era um foca insistente. Fiquei por ali, sapeando, ouvindo comentários, as respostas dele às perguntas dos leitores, e fiz a matéria. Aquilo não foi apenas um prêmio, mas um incentivo que me valeu muito”, destaca o hoje veterano repórter.

Como todo jovem jornalista, Audálio Dantas também tinha seus ídolos, como o escritor Graciliano Ramos. “Ele conseguia escrever sobre assuntos de alta complexidade de forma simples, como em Vidas Secas e Angústia, por exemplo”, aponta Audálio, que nos revela sua frase predileta do autor: “a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, mas para dizer”, evidencia.

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E é com essa dica que Audálio sempre procurou nortear sua profissão. Para ele, contar histórias pode sim ajudar a mudar o mundo. Sua sugestão para os jovens jornalistas? “Ler o máximo que se possa ler, adquirir conhecimentos e aprender o exercício diário de dizer as coisas”, adverte Audálio. Segundo ele, a notícia se transforma sim em espetáculo em alguns casos, mas é preciso estar atento para não se exaltar. “Temos um jornalismo de curiosidade e de interesses, este é um problema grave da sociedade brasileira. Por exemplo: quando morre alguém de classe média, a imprensa publica, mas quando morrem pessoas diariamente na periferia, isto não é comunicado, pelo contrário, quando existem manifestações dentro das comunidades, elas são reprimidas pela polícia. E não viram notícia”, denuncia o jornalista.

Muitas reportagens de Audálio Dantas foram transformadas em livros, como O Circo de Desespero (Símbolo, 1976), Tempo de Luta – Reportagem de uma atuação parlamentar (Independente, 1981), O Chão de Graciliano (Tempo d’Imagem, 2007), Menino Lula (Ediouro, 2009), As Duas Guerras de Vlado Herzog (Civilização Brasileira, 2012) e Tempo de Reportagem (LeYa, 2012), em que o jornalista relembra os bastidores de treze matérias cuidadosamente selecionadas. Sem dúvida alguma, valem muito a pena a leitura!

Por Cristiane Paião.
Fotos: Marina Lopes

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Perfil de Cristiane Paião

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Cristiane Paião é estudante de jornalismo e escreve para o blog Ciência, Tecnologia e Educação em Foco. Além disso participa do “6º Curso Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter”, do Projeto Repórter do Futuro da OBORÉ, realizado em parceria com a Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

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