Afinal de quem estamos falando?

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Foto: Pixabay
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O Zé sempre teve uma vida atribulada. Passou boa parte dela fora do Brasil e por isso pode assistir o confronto entre grandes nações. O desenvolvimento de uma nova ideologia que ameaçava as estruturas políticas, econômicas e sociais foram duramente combatidas pelos adeptos do antigo regime. Ainda assim a revolução caminhou e o Zé presenciou uma parte dela, talvez a mais cruel, quando muitos foram mortos acusados de anti revolucionários, proprietários de grandes latifúndios ou simplesmente porque estavam aliados aos interesses da potências estrangeiras. O Zé aproveitou a estada no exterior para aprimorar seus conhecimentos, especialmente a ideologia política que ele e seus amigos abraçaram. Conheciam pouco dela, mas o entusiasmo era grande uma vez que o sonho de todos era mudar o mundo e construir uma nova civilização.

A tradição política da família do Zé era conhecida e sua atuação na universidade constantemente fiscalizada pelos serviços de segurança do Estado. Enquanto seus amigos viviam de ilusão e arroubos políticos, Zé se concentrou em ser um planejador. Sabia que para que o projeto político fosse à frente era preciso ter visão estratégica e não se deixar guiar por um ou outro acontecimento de menor importância. Era preciso ter um norte. Para isso era necessário vasculhar a situação geo-política na qual o Brasil estava inserido. O quadro era de vigilância total para impedir movimentos revolucionários na América Latina. Outros já tinham ocorrido e o poder imperial desafiado por grupos locais que também queriam a liberdade, o fim dos terratenientes, a distribuição de terras para o povo e se possível desenvolver uma indústria essencialmente nacional que quebrasse a relação de eterno produtor de matérias primas e importador de produtos com alto valor agregado. Sem indústria nacional o país ficava à mercê dos que controlavam os preços nos mercados mundiais: sempre mais baixos para as commodities e mais alto para os manufaturados.

O que poderia fazer o Zé contra as poderosas forças tradicionais e conservadoras que dominavam a nação? Simplesmente peitá-las seria suicídio, afinal o exército estava bem armado para impedir qualquer desobediência. Fazer uma aliança estratégica com parte da classe dominante seria uma saída bem articulada, ainda que muitos dos seus companheiros não concordassem com isso e a qualificassem como traição. Organização, coleta de recursos, refúgio para os perseguidos, espaço para discussão dos rumos do movimento eram monitorados pela repressão e a única saída seria tratar de tudo isso em uma sociedade secreta, a maçonaria. Zé não hesitou e montou um plano que faria mudanças no governo do Brasil, é verdade que era muito pouco se comparado com o ideário político, mas alguém iria dizer que muitas vezes é preciso dar um passo para trás para dar dois para frente. Tornou-se ministro. Aliou-se com o príncipe regente e os liberais do Rio de Janeiro e São Paulo. Na primeira oportunidade Zé, ou melhor José Bonifácio de Andrada e Silva tomou as rédeas dos acontecimentos políticos e conduziu a colônia rumo a um país independente.

Por Heródoto Barbeiro

Perfil de Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro é jornalista, âncora do Jornal da Record News e do R7, diariamente as 21h. Ex-apresentador do Roda Vida da TV Cultura e do Jornal da CBN. Autor de vários livros na área de treinamento, história, jornalismo e budismo.

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