Caso da Escola Base completa 25 anos: novo personagem aparece para contar sua versão

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No dia 28 de março de 1994, os proprietários da Escola Infantil Base, em São Paulo, foram acusados, por duas mães, Lúcia Eiko Tanoue e Cléa Parente de Carvalho, de abusarem sexualmente de seus filhos. A acusação foi registrada na 6ª Delegacia de Polícia, localizada no bairro da Aclimação, zona sul da capital paulista.

Além dos donos da escola, Maria Aparecida Shimada e Icushiro Shimada, também foram vítimas da denúncia o casal Maurício Alvarenga, motorista da kombi escolar e sua esposa Paula Milhin, professora, e os pais de uma outra criança que frequentava a escolinha, Saulo da Costa Nunes e Mara Cristina França Nunes.

Antes mesmo da investigação policial chegar a um veredito, a imprensa foi chamada, e ao reproduzir a acusação daquelas mães sem ouvir o outro lado, acabou contribuindo para a depredação da escola e o sofrimento físico e psicológico das famílias acusadas.

Passados alguns meses, o caso foi arquivado por falta de provas. Entretanto, o estrago já estava feito. A vida dessas famílias nunca mais foi a mesma. E até hoje elas sofrem com as consequências de infundada acusação.

Capa do livro “Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira”. Foto: Divulgação

No livro “Escola Base: Onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira“, descrevi como cada um dos personagens dessa triste história passou as últimas duas décadas, tendo que enfrentar dificuldades financeiras, traumas e brigas na justiça.

Após ter publicado essa obra, entretanto, tive contato com um personagem pouco conhecido: Ricardo Shimada, o filho do casal de proprietários da Escola Base. Em uma de nossas conversas, ele manifestou o desejo de contar a sua versão do caso. Decidimos então, juntos escrever um novo livro que mostrará outro aspecto dessa história e colocará o leitor na pele de uma das vítimas mais próximas da Escola Base.

O livro já está em seus ajustes finais e será publicado ainda este ano. Confira abaixo, em primeira mão, a introdução da obra “O Filho da Injustiça”, escrito à quatro mãos com Ricardo Shimada.

O dia 28 de março de 1994, até hoje mexe comigo. Nessa data se iniciou o fato jornalístico de maior repercussão na imprensa daquela época, e que até hoje é considerado uma vergonha do jornalismo brasileiro: o Caso da Escola Base.

A história é bem conhecida, inclusive se tornou matéria de estudo em faculdades de comunicação e direito. Muito já se falou sobre esse triste acontecimento que acabou com uma creche, destruiu um sonho e arrasou várias vidas. Essa foi a história dos meus pais, e de certa forma também foi a minha.

Se você não se recorda, vou resumir: os donos da Escola Base, que eram os meus pais, foram acusados por duas mães de abusarem sexualmente das crianças que frequentavam aquela instituição de ensino. A imprensa repercutiu as falas das denunciantes em manchetes sensacionalistas e em matérias mal apuradas. Resultado: a escolinha foi apedrejada, saqueada, destruída e meus pais tiveram que se esconder da população, que, furiosa, pedia a cabeça deles. Alguns meses depois, o caso foi arquivado pela polícia por falta de provas, a imprensa perdeu o interesse na cobertura daquela história e meus pais ficaram com o prejuízo de uma escola falida, cheio de dívidas e tendo que enfrentar olhos de reprovação de alguns que até o fim da vida desconfiaram da inocência deles.

Desde então, meus pais evitavam falar com jornalistas, acredito que não é necessário explicar o motivo… Mas, talvez você esteja se perguntando o porquê, após vinte e cinco anos de silêncio, eu apareci para contar essa história já conhecida. Logo eu, um personagem esquecido no meio de todo esse acontecimento. Pois esse é exatamente motivo. Quero mostrar o meu ponto de vista sobre o caso. Expôr o que eu sentia quando o nome dos meus pais e da Escola Base apareciam nos jornais. Descrever como era o meu dia a dia antes, durante e depois do caso se tornar pauta nacional. Enfim, transmitir o que vivi e quem sabe, fazer com que você, caro leitor, conheça um pouco melhor essa dolorosa experiência.

Não foi fácil aceitar tudo isso que aconteceu na minha vida. Por mais que eu me esforçasse para esquecer desse caso, minha mente sempre me assombrava com perguntas como: ‘Porque isso aconteceu com a minha família? Como seria se nada disso tivesse acontecido? Onde está a justiça?’ Precisei ser forte, levantar a cabeça e retomar minha vida. Foi necessário aceitar que eu não poderia mudar o passado. Amadureci, e com a ajuda de muitas pessoas, pude entender meu propósito de vida e o que eu queria. Apesar de não saber muito bem por onde deveria começar.

Ricardo Shimada. Foto: Divulgação.

Em 2016, durante um encontro de família, conheci o Alexandre Silva, professor de jornalismo da Unilago e amigo de alguns dos meus parentes. Compartilhei com ele a minha história, ele obviamente já a conhecia, mas até então não sabia que estava diante do filho dos donos da Escola Base. Foi então que ele me provocou: ‘Por que você não escreve um livro?’. Essa pergunta me encorajou a enfrentar os meus medos e ele me incentivou a começar já por aqueles dias, através de um convite para palestrar para seus alunos. Compartilhei a ideia com a minha esposa, Amanda, que também ficou empolgada com a sugestão do professor Alexandre.

Através da divulgação da palestra fiquei conhecendo o Emílio Coutinho, jornalista que naquele ano havia publicado um livro que contava a história de cada um dos personagens envolvidos no Caso Escola Base. Após um contato inicial via Facebook, combinamos de conversar pessoalmente. Nosso encontro foi em uma cafeteria de Atibaia, cidade onde moro. Ali nos conhecemos melhor, e eu e minha esposa concordamos em contar com a ajuda e experiência dele para produzir o livro. Expliquei que minha proposta era apresentar a história sob o meu ponto de vista, e ele aceitou. Nos encontramos mais algumas vezes, ele sempre trazia seu gravador e uma longa lista de perguntas. Queria que eu contasse detalhes, recordasse situações e até explorasse o passado dos meus pais para melhor contextualizar o que foi para nossa família o Caso da Escola Base. Além disso, eu também quis produzir algo, afinal era a minha história. Então eu comecei a escrever o que lembrava sobre minha vida. Coloquei essas lembranças no papel e enviei para que ele pudesse unir e organizar com o que havia coletado através das entrevistas e pesquisas documentais. O resultado é este que você tem em mãos: um relato do acontecido com detalhes sobre o caso e sobre a minha vida nunca antes contados.

Meu desejo com esse livro não é apenas relatar os acontecimentos que marcaram a minha vida, mas acima de tudo poder influenciar de forma positiva as pessoas que lerem esses escritos. Talvez você também tenha passado, ou esteja passando por alguma situação terrível que fez com que você tivesse que mudar o rumo da sua vida. Acredito que a história que aqui será narrada poderá te ajudar a encontrar um propósito para sua existência. A entender o motivo pelo qual Deus te permitiu passar por isso. Quero te ajudar a erguer a cabeça, deixar o que foi passado no passado e seguir em frente. Te desejo uma ótima leitura!

* * * * * *

Por Emílio Portugal Coutinho

3 COMENTÁRIOS

  1. Essa bandida da Lúcia Eiko tanue (Chang) trabalha aqui no Japão numa fábrica de marmitas do Seven Eleven, muito malcriada e meia louca, como se nada tivesse acontecido! Não tem peso na consciência….

  2. E passado mais de 25 anos de um terrível acontecimento de injustiça que destruiu a vida de 6 pessoas, ainda sim vemos casos de grande repercussão como esse em que há um grande ‘massacre’ não apenas por parte mídia, mas também da sociedade.

    Pois em muitos casos a mídia se preocupa apenas em mostrar a história sem se preocupar com os fatos e verdades por trás da história jogada ao vento.

    Como exemplo podemos citar o caso da mulher que foi acusada de matar a filha com cocaína na mamadeira e acabou ficando conhecida como ‘monstro da mamadeira’.

    Acho muito importante termos cuidado ao ouvir e ler as notícias, pois a mídia é fundamental por notícias coisas que são importantes sabermos, mas por outro lado em muitos casos é sensacionalista e oportunista, como aconteceu nesse caso chocante que acabou destruindo seis vidas, sonhos e projetos de vida.

    Quero muito ler os livros e entender melhor os grandes detalhes dessa história horrível.

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