Defender o idefensável

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Secretário de Estado americano, John Kerry, reúne-se com ministros do Japão. Foto: State Department (Domínio Público)
Secretário de Estado americano, John Kerry, reúne-se com ministros do Japão. Foto: State Department (Domínio Público)
Secretário de Estado americano, John Kerry, reúne-se com ministros do Japão. Foto: State Department (Domínio Público)

É muito mais nas redações do que nas escolas que se aprende a usar o eufemismo. Ele é a arte de usar palavras melífluas e suaves para se comunicar coisas desagradáveis e que possam pesar na opinião pública de forma negativa para o status quo. Quando usado com essa intenção, o eufemismo vai de encontro a uma das maiores criações do ser humano que é a linguagem. Ela é o instrumento, não importa sobre qual plataforma, que permite ao jornalista divulgar acontecimentos, opiniões, reportagens, comentários, pensamentos e o conhecimento de uma forma geral. Portanto uso indiscriminado do eufemismo é uma má fé cuja fonte pode ser o jornalista, o político, o partido político ou qualquer outro protagonista da arena social. Pode ir de um ataque aéreo devastador em uma vila do Iraque, chamado de “bombardeio cirúrgico para poupar inocentes”, ou uma seca em uma região metropolitana por falta de planejamento “crise hídrica motivada por péssimas condições pluviais”. Há muitos outros por aí.

O medalha de ouro na produção de eufemismos é o porta-voz. Seja ele de onde for. Do governo, das empresas privadas ou estatais ou de órgãos públicos. Para seguir essa prestigiosa carreira, com grande exposição na mídia local e global, em alguns países tem nobre título de “ministro”, é preciso treinar sempre. Para cada situação desfavorável criar eufemismos convincentes que sejam reproduzidos pelos jornalistas por ignorância, ma fé ou por “orientação da casa”. Este também um eufemismo para encobrir a linha editorial do veículo. Assim, danos colaterais servem para descrever um ataque contra uma população civil com a morte de mulheres e crianças. Absenteísmo abaixo dos níveis mínimos de funcionamento, para descrever uma greve de professores com os alunos sem aula nas escolas. Ajuste fiscal para recolher mais impostos, cortar gastos em saúde e educação, diminuir investimentos em infraestrutura. Alongamento do perfil da dívida para comunicar que os cofres públicos foram rapados e não há como pagar os credores que batem na porta do tesouro. E por aí vai.

A lebre, ou melhor, o eufemismo, foi denunciado pelo genial George Orwell: “Em nossa época, o discurso e a escrita política consistem, em grande parte, em defender o indefensável”. Ele ensina que a linguagem política deve ser constituída essencialmente de eufemismos, de pseudo banalidades e de ambiguidades supérfluas. Na época que viveu a comunicação era precária e qualquer um dos lados da Guerra Fria era capaz de bloquear as informações difundidas pela parte contrária. Usavam e abusavam da contra informação para embaralhar a cabeça das pessoas e confundir a opinião pública. Hoje, com as plataformas digitais, isso é muito mais intenso, eficaz, capilar, compartilhado e de alcance global. Aparece até nas telas dos elevadores comerciais. Nesse novo ambiente o eufemismo virou celebridade, com amplos espaços com direito a fotos e tudo mais. Cabe aos que praticam a reflexão desenrolar o nó da linguagem e para isso podem se valer do livro de BAILLARGEON, N.. Pensamento Crítico, da Elsevier.

Por Heródoto Barbeiro

Perfil de Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro é jornalista, âncora do Jornal da Record News e do R7, diariamente as 21h. Ex-apresentador do Roda Vida da TV Cultura e do Jornal da CBN. Autor de vários livros na área de treinamento, história, jornalismo e budismo.

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