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Dicas para uma boa entrevista

Entrevista

A tarefa de um repórter é relatar o que vê, ouve e dar ao seu público argumentos para que tirem suas próprias conclusões. O jornalista não deve interferir ou participar do fato, a não ser que seja um articulista, um âncora de telejornal, um formador de opiniões declarado, daqueles que a gente ouve porque concorda com a linha de pensamento dele. Mas, se você ainda não é um desses dinossauros do jornalismo ou não se vê capacitado para navegar por assuntos ainda desconhecidos, é melhor não queimar seu filme. Siga o curso natural das coisas e apenas reporte!

Na rua, na chuva ou na fazenda

Repórteres sempre estão em locais onde há notícia. E nestes locais sempre há curiosos e gente pronta para colaborar, seja com informações adicionais do fato ou sugestões de outras matérias – os produtores na redação adoram isso. Durante o trabalho de externa, o repórter de TV é um dos que mais chama a atenção do público, seja por ser reconhecido de outras reportagens ou por toda a parafernália utilizada para gravar – a câmera, principalmente. Os mais “corajosos”, vão se aproximar do repórter para conversar. Na minha opinião, todos merecem ser ouvidos, afinal de uma conversa dessas podem sair informações valiosas daquela matéria que se cobre ou de outras, tão interessante quanto. Se for uma sugestão para uma nova reportagem, não se esqueça de anotar o nome e o telefone da nova fonte.

Papagaios de pirata

Mas, nem tudo são flores. Exitem os curiosos, os baderneiros, os revoltados e os que simplesmente querem “aparecer”. É fácil identificá-los, mas também são pessoas que merecem respeito – sua atenção já são outros quinhentos. Nada de debochar ou se mostrar desinteressado – isso não é postura de um profissional da comunicação. Cuidado com os possíveis candidatos a vereador – eles adoram uma câmera.

“Sejam bem-vindos”

Se o entrevistado topou receber a equipe para uma entrevista é sinal de que ele reservou um tempo da agenda dele pra isso, então, retribua sendo educado. Deixe o entrevistado falar, anote o que achar necessário, mas sem desviar a atenção dele. Pergunte, sem ofender. Procure respostas e não um inimigo – pelo menos no começo. Se o entrevistado falar pouco, procure perguntas mais abertas, peça para ele contar sobre uma situação relacionada ao tema etc.

Coletiva

A primeira coletiva a gente nunca esquece. Existem aquelas organizadas, numa sala, com uma mesa para colocar os microfones, já outras é na “raça”, espremido entre fotógrafos, cinegrafistas e outros repórteres. O braço parece curto nessas horas.

Normalmente, os colegas de outras emissoras são gentis, mas na hora H, isso pode mudar. A saída de um artista de um hospital para dar declarações em uma coletiva depois de um grave acidente, por exemplo, pode gerar tumulto. O repórter precisa ter acesso ao entrevistado, assim como seu cinegrafista ter um ângulo bom para gravar. As perguntas se atropelam, mas normalmente são as mesmas que você tem em mente. Meu conselho é fazer pelo menos uma.

Autoridades x polêmicas

Se o repórter tem uma pergunta polêmica ao entrevistado, é melhor deixar por último. Ganhe a confiança dele com respeito e perguntas mais amenas. Isso desarma o entrevistado e ele se solta mais nas respostas, fica mais acomodado com o jornalista. Certa vez o então governador Mário Covas foi dar uma entrevista coletiva no interior de São Paulo sobre a inauguração de uma nova rodovia. A imprensa local foi avisada pelo assessor do governador para não perguntarem sobre uma discussão que o político teve com manifestantes na semana anterior. Quando Covas chegou frente aos repórteres, um inexperiente jornalista começou pela pergunta fatídica. Resultado, o governador não abriu a boca, se virou e foi embora, deixando todo mundo sem qualquer declaração. Nesse caso, o apressado nem se quer comeu!

Entrevistando pacientes

Pessoas acamadas, fracas ou debilitadas por doenças estão vulneráveis física e emocionalmente. Levar mais problemas é o que a família menos espera de uma equipe de TV. Se existe a possibilidade de alguém se abrir frente a uma câmera e falar da própria doença, encare a oportunidade com respeito e dignidade. Ficar com pena, com dó não ajuda. Seja humano, acima de tudo, e profissional o tempo todo.

No meu trabalho de conclusão de curso fiz um livro reportagem, junto com um amigo, sobre câncer infantil no hospital Boldrini em Campinas, interior de São Paulo. Fomos muito bem recebidos pelas equipes do hospital, casas de apoio, famílias e pelos pequenos pacientes. Falar de doença sempre é delicado. Por outro lado, a emoção contagia telespectadores – mas, não faça disso sua principal meta na reportagem.

Tira a mão da câmera!

Reportar crimes pode ser tenso. Quando a equipe vai para a delegacia desenvolver o assunto, entrevistar vítimas, delegado e policiais, pode dar de cara com suspeitos presos e familiares deles. E o clima pode esquentar. Gravar o rosto do criminoso às vezes é necessário, desde que os direitos sejam preservados. Mas, nem sempre todos entendem que gravar é uma coisa, e colocar no ar é outra. Nessas horas o cinegrafistas e fotógrafos são os alvos e as armas são ofensas, pedras, cuspes, chutes ou socos. Leva quem estiver por perto.

Já defendi muito cinegrafista enquanto gravavam. Na rua, não há lei que proíba o trabalho da imprensa, mas encostar a mão na equipe de reportagem ou quebrar equipamento é crime de agressão. Se isso acontecer, faça um B.O.

Por Thiago Moraes

Perfil de Thiago Moraes

Thiago Moraes
Repórter e apresentador de telejornais, Thiago Moraes (31) trabalha com jornalismo televisivo desde 1996, quando iniciou na área técnica (atrás das câmeras). Formou-se em jornalismo pelo UNIFAE, em 2005, na cidade natal (São João da Boa Vista-SP). Pós-graduado em Linguagens Midiáticas e pós-graduando em Jornalismo Econômico pela PUC-SP. Thiago Moraes é autor de mais de 3 mil reportagens televisivas e também escreve para o blog TELE BLOG NEWS – Bastidores do jornalismo em TV.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Olá

    Parabéns pelo blog, meu sonho sempre foi ser jornalista televisivo, amo essa profissão. Estou cursando o ultimo ano no colégio.Meu avô tem uma filmadora profissional, eu a ligo e fico dando noticias do dia, isso é um bom jeito de treinar?

    obrigado

    • Olá, Pedro! Que bom que já escolheu sua profissão. Sim, essa é uma forma de você se preparar. Aconselho também que você leia as notícias dos jornais, revistas e assista o noticiário (sempre em diversos veículos e não apenas em um). Mas faça isso de forma crítica. Leia também livros de técnica jornalística, livros-reportagem, enfim, mergulhe no universo do jornalismo. E é claro, acompanhe as atualizações da nossa página. 😉 Até mais! Emílio Coutinho

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