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No último dia 12 de junho completou-se 14 anos do sequestro do ônibus da linha 174.
No último dia 12 de junho completou-se 14 anos do sequestro do ônibus da linha 174.

Sandro Barbosa do Nascimento nasceu no dia 7 de julho de 1978, na cidade de São Gonçalo (RJ). A infância de Sandro, até os seis anos, foi na favela do Rato Molhado – no Rio de Janeiro- com uma irmã e a mãe, Larice Rosa do Nascimento. De família pobre, Sandro presenciou o assassinato de Larice. Esse seria o primeiro trauma vivido ainda criança.

Sandro não conheceu o pai e após a morte da mãe, foi viver com a tia Julieta do Nascimento. De poucas palavras, era uma criança acuada, tinha dificuldades com o estudo e não sabia ler, nem escrever. Certo dia, ele saiu para ir à escola e não voltou mais; escolheu as ruas para viver. Com o passar dos anos, vez ou outra procurava a tia, mas não voltou para casa.

Na rua, os seus “irmãozinhos”, como ele chamava os moradores de rua, desconheciam a história do Sandro. Ele não gostava de falar muito sobre o seu passado, dizia apenas que não tinha família. Foram vários os bairros em que passou às noites dormindo e durante o dia, constantemente, assaltava pessoas para alimentar o seu vício em cocaína e cola. Mas foi na região central da cidade, mais precisamente na Candelária, aos 11 anos, que Sandro fez amigos e conheceu a tia Yvonne. Com essa nova “família” ele recebeu o apelido de “mancha”.

Assim como no cotidiano, moradores de rua são “invisíveis” aos olhos da população, mas não para Yvonne de Melo. Desde 1998, ela, hoje com 66 anos, doutora em Filologia e Lingüística pela Universidade de Paris – Sorbonne, ajuda crianças e adolescentes que sofreram violência, com o Projeto Uerê. Os moradores da Candelária a tinham como mãe. Assim, ela os protegia, da forma que podia, e o carinho era o mesmo para com todos. Em contrapartida a esse afeto, por defender a causa de que crianças não merecem ser abandonadas, a “mãe” foi acusada por algumas pessoas de “protetora dos bandidos”, como relatado pela própria Yvonne no programa A Liga, transmitido pela Bandeirantes.

Na noite de 23 de julho de 1993, policiais à paisana mataram oito menores entre 11 e 19 anos, que dormiam em baixo da marquise da Candelária. Reportagens afirmam que tinham aproximadamente 70 pessoas naquele local e Sandro era um deles. (In)felizmente, ele conseguiu sobreviver.

Com a chacina da Candelária, soma-se mais um trauma as experiências de Sandro. Ainda menor de idade, ele foi preso por furto a mão armada e viveu foragido por um bom tempo, até o dia 12 de junho de 2000. Esse dia está registrado na história criminal do Brasil por causa do sequestro do ônibus 174. Ressalta-se que o papel de protagonista coube a Sandro do Nascimento.

Por volta das 14h, de uma segunda-feira, Sandro entrou no ônibus da linha 174 e estava armado. As pessoas do ponto de ônibus comunicaram o motorista e ligaram para a polícia. Em poucos instantes, o veículo foi parado por uma viatura e Sandro, que segundo relatos dos passageiros, estava debruçado sobre o banco, sem esboçar qualquer ato violento, viu-se em uma “sinuca de bico”.

Começa o desespero de todos que estavam no ônibus. O motorista e alguns passageiros conseguem sair, mas outros 11 são rendidos por Sandro. Viaturas foram acionadas, a imprensa começa a chegar e o cerco está feito. Foram quatro horas de pânico e desespero. Sandro se mostrava resistente e com a suspeita de que ele estava sob efeito de drogas.

Assim como a imprensa, moradores estavam próximos ao cenário. Isso mostra a primeira falha da Polícia Militar e do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), presentes no local. Tinham curiosos, ao mesmo tempo em que tinham jornalistas posicionados para registrar todo o movimento.

Ao perceber as câmeras, repórteres e fotógrafos, Sandro começa a se exibir e até contar quem ele era. No documentário Ônibus 174, dirigido por José Padilha, mostra quando o sequestrador disse: “(…) Não mataram os meus irmãozinhos da Candelária? Eu tava lá. Junto com a tia Yvonne”.

Após horas com os reféns, alguns passando mal, ele liberou três pessoas. De acordo com Luana, ex-refém que conseguiu criar um vínculo e conversar com Sandro, ele pedia que esboçassem medo, nervosismo, que gritassem e chorassem. Das vezes em que apareceu na janela, Sandro afirmava o pedido de uma granada e mil reais, para libertar as pessoas.

Usando a estudante de 21 anos, Geísa Firmo Gonçalves, como escudo, Sandro finalmente desceu do ônibus, às 18h50, com a arma apontada para o abdômen da refém. Um policial armado com metralhadora se aproximou e o sequestrador se assustou e disparou três tiros em Geísa, que também levou um tiro do policial no momento em que Sandro se virou.

Grávida de dois meses, Geísa faleceu no local. A falta de isolamento por parte da polícia, fez com que as pessoas e a imprensa rapidamente se aproximassem. Sandro foi colocado vivo dentro da viatura da polícia e dado como morto, momentos depois, por asfixia. Os policiais acusados pela morte de Sandro foram inocentados.

No acervo do jornal O Globo, encontra-se o desfecho do caso Candelária. Faz 20 anos do ocorrido e nesse período, dos 70 moradores, 44 foram mortos. Entre os sobreviventes há Wagner dos Santos, principal testemunha do massacre. Ele sofreu um atentado na Central do Brasil e, sob ameaça, deixou o país e enfrenta sérios problemas de saúde. Outro personagem é Rodrigo Fernandes que, na atualidade tem casa, mulher e uma filha. No presente, ele luta para tirar crianças das ruas e as levam para um abrigo. Diante disso, o seu maior desejo é fundar um espaço de inserção social.

Sandro tinha o desejo de deixar a vida nas ruas, de trabalhar, de ter uma família e ser conhecido nacionalmente. Infelizmente, a única parte que se concretizou, não foi um momento feliz e duradouro.

Por Lauriane Martins Vieira

Perfil da Autora

Lauriane Martins Vieira

De Uberlândia/MG, Lauriane está no 8º período do curso de Jornalismo na Unitri (Universidade do Triângulo). Tem “alergia” à política, um “relacionamento sério” com a música e um desejo de viajar pelo mundo. O seu lado comunicativo é favorecido pelo prazer em conhecer pessoas e histórias.

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4 COMENTÁRIOS

  1. O seu artigo está impecável, um resumo de uma vida “cruel”, com um diagnóstico marcado pela violência e intolerância. Essas coisas, em especial, no Rio de Janeiro deflagraram um estado de sítio dá população. Não se anda pelas ruas, digo de todo Estado, em tranquilidade. Mesmo os locais ditos mais calmos e sossegados. Porque a explosão da violência pode acontecer sem qualquer aviso. Tiros, arrastões, assaltos, furtos e brigas. Será isso um reflexo da falta da presença do Estado, da intolerância em todos os aspectos, será algo culturalmente falando ou falta de uma política de investimentos sociais? Bom, sou um desses cariocas, e vivo aqui nessa terra. E tal como muitos, apesar de tudo que se vê, que se toma conhecimento, adoramos esse lugar. Aqui há um pouco de tudo e quando não há, tem-se de tudo um pouco. Aqui se tem a 8ª maravilha do mundo, a 6ª praia mais linda desse planeta, o maior túnel urbano já construído, o maior vão livre de uma ponte sobre o mar, o maior aquário marinho das Américas, o maior número de escolas por metro quadrado entre todos os países e o maior show dá terra a cada ano.
    É uma cidade de grandes proporções, que segue o seu caminho. Bom é hora de ir trabalhar, tenho um congestionamento pela frente, alguns garotos pedintes nas ruas e alguns vendedores de doces nos sinais. Até breve.

  2. Ficou ótimo seu artigo, porém deveria modificar a parte em que ”ele se assusta com as pessoas e mata a refém”, quando na verdade ele atira na refém porque um atirador mirou nele e errou o alvo acertando de raspão a refém, foi quando ele atirou três vezes na refém. beijos.

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