Impresso e jornalismo prostituto

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A correria diária das redações e a cobrança dos editores para fechar o jornal, enviar para a diagramação e chegar às mãos dos leitores no dia seguinte, faz com que os jornalistas deixem de abordar o fato com a dimensão humana, no intuito de suscitar o interesse e a atenção do público.

Não utilizam o gênero literário que está quase extinto no impresso. Deixam de lado detalhes que contribuem na essência da notícia. Não observam ambientes, cores, cheiros e expressões faciais dos entrevistados, simplesmente reproduzem o mesmo que as outras mídias, e em algumas situações nem vão a campo para constatar o fato pessoalmente, decidem fazer a entrevista por telefone ou e-mail.

Ocorre que para cumprir todas as pautas do dia, falta tempo para uma apuração mais minuciosa e isso acaba deixando a matéria superficial, transferindo para os textos as mesmas informações que os outros veículos já deram. Além disso, as mídias eletrônicas conseguem informar primeiro que os impressos, que infelizmente só chegam às bancas na manhã do outro dia.

Em contrapartida, recém-formados em jornalismo quando entram no mercado querem colocar em prática o que aprenderam durante o curso, porém são emplacados pela linha editorial em saber que a imprensa é uma empresa e precisa de subsídio financeiro para se manter. E também, pela pressão dos editores que deixam as matérias padronizadas e cobram dos repórteres agilidade para redigirem os textos a partir das fontes de informações.

Quando consultamos uma fonte, as declarações podem ser limitadas, como no caso de lideranças políticas ou pessoas com alguma influência na sociedade, que são orientadas pelos assessores a falarem somente o necessário. Assim, utilizamos recursos como: de acordo com, segundo ele.

Acontece que para entregar as matérias com o limite de toques exigidos, o jornalista após redigir o lide faz uso das informações adicionais, abrindo aspas e colocando a fala de alguém citado na matéria. Resta saber se o público consumirá a leitura.

No entanto, o jornalista lida com um dos bens mais importantes da sociedade contemporânea, a informação. As pessoas não querem saber o que aconteceu, mas por que aconteceu. Querem que os jornais sejam uma caixa de surpresa, ao abri-lo se deparem com exposições inéditas que mexam com o interesse público, o que até alterem o modo de pensar.

Porém, a realidade é outra. Os jornais chegam às bancas pela manhã e se transformam em um simples papel ao final da tarde. Quando falta espaço para completar a diagramação, apelam em aumentar o tamanho das fotos, colocam mais anúncios publicitários ou inserem notas. Quando a circulação diminui, recorrem ao departamento de marketing para que crie ações de comunicação, agregando à venda do impresso a alguma promoção.

O alemão Johannes Gutenberg ficaria feliz em saber que a prensa móvel resultou em uma mídia de comunicação de massa. Mas, por outro lado, ficaria frustrado em ver que sua invenção tornou-se uma empresa de textos pautados conforme a ideologia do veículo.

Por Aline Pagliarini.

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Perfil de Aline Pagliarini

Aline Pagliarini

Aline Pagliarini (22 anos) é jornalista recém-formada pela Universidade Braz Cubas (S.P), amante de bons livros e fã dos textos de Eliane Brum.

Recebeu Menção Honrosa na 4° Edição do Prêmio CBN de Jornalismo Universitário (2012).Trabalhou em jornal, rádio, agências e setor de comunicação de órgão público.

Acredita que a palavra escrita ou falada pode desenvolver o espírito crítico das pessoas, da maneira que elas reflitam e questionem sobre os problemas sociais.

“É pelos incômodos e pelas dúvidas que nos tornamos capazes de viver várias vidas numa só”. (A Menina Quebrada – Eliane Brum)

1 COMENTÁRIO

  1. Aline, concordo com suas palavras. Infelizmente, focas que sonham com o exercício da profissão como é ensinada na universidade acabam se decepcionando quando chegam em uma redação. Às vezes existem até “lista negra” com nomes de pessoas públicas que não devem ser entrevistados ou citados em nenhum tipo de reportagem. Estes jamais devem servir como fontes.

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