Onde as grandes redações não querem chegar

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O bom jornalista foge da obviedade e reconhece a importância da veiculação de uma matéria da periferia. Foto: Pixabay
O bom jornalista foge da obviedade e reconhece a importância da veiculação de uma matéria da periferia. Foto: Pixabay
O bom jornalista foge da obviedade e reconhece a importância da veiculação de uma matéria da periferia. Foto: Pixabay

O assunto é velho. A grande mídia ignora. Linha editorial, conteúdo de costume já garantido ao público alvo; tudo justificável para manter o pleno funcionamento das coisas. Ok! Mas será que assim está correto?

Há alguns dias, um amigo curtiu uma pauta que eu estava apurando — sobre a instalação incorreta de uma ciclovia no bairro da Vila Progresso, Itaquera. Depois de contar como foi a apuração e que havia entrevistado o Prefeito e também o Secretário de Transportes, ele me disse que também queria a pauta para publicar no grande jornal em que ele estagiava. Meu texto estava para ser publicado no dia seguinte.

“- Beleza! Vende para o seu editor e depois me conta no que deu.”

Dois ou três dias depois ele me disse que o editor não aceitou. O motivo do chefe: É Itaquera. Periferia!

Não foi a primeira vez que ouvi isso. Na verdade, já engoli muito essa resposta de editores.

A quantidade de veículos de comunicação espalhados pela cidade de São Paulo – havendo pelo menos 10 grandes possuidores de jornais, portais, redes sociais, TVs online e até rádios – me intriga, porque esses acabam por rodear os mesmos espaços e abordar os mesmos assuntos. Há sim um paradoxo sobre o que gostamos de ler e que leitura nos é ofertada. Engraçado também é ver que essa ideia está sempre ligada à massa. A mesma que procura repórteres e editores para tratar de uma problemática local, mas passa despercebida e, porque não dizer, rejeitada. Sua realidade não interessa se não houver crimes hediondos ou ônibus queimados.

Com tanto veículo funcionando na capital é difícil compreender porque questões hiperlocais são barradas pela mesmice editorial. Ou seria conforto editorial?

“_E o SPTV primeira edição, Renata? _Beleza! Você não entendeu.”

Muitos veículos repensaram seus mapas na grande Sampa. Conheço parte deles. E que bem eles fazem. Mas ainda não é o bastante.

Quanto aos jornais de bairro, sinto em saber que as notícias impressas são as mesmas da grande mídia. O morador que pega o jornal do seu bairro, colocado em seu portão gratuitamente, vê as mesmas manchetes gritantes do seu televisor. Nada de bom ou ruim acontece na periferia. Nem nas páginas dos jornais de bairro. Lá estão notícias sobre os Parklets, ou minipraças, que estão sendo instalados na Avenida Paulista.

O editor que ainda lembra do objetivo do veículo, requenta alguma “novidade” passada pela Prefeitura, SPTrans ou CET. Mas poucos são os que produzem matérias sobre o que está sendo feito no bairro, tanto pelo poder público, quanto pela municipalidade. Poucos são os que dão voz ao morador. Voz à periferia. Mas de um desses eu fiz parte. E aquilo sim era imprensa local.

As boas, prazerosas e vendáveis matérias estão por toda parte. Mas é preciso chegar até elas. Onde quer que estejam.

Já o bom jornalista é aquele que não se bica com a linha editorial ou com a obviedade. É aquele que encontra brechas e convence o jornal a tecer outras tramas. É daqueles que reconhece a importância da veiculação de uma matéria da periferia.

O meu amigo saiu desse veículo há uma semana. E não foi ele quem perdeu. Hoje ele é repórter de um portal onde quem tem sangue nos olhos pelo jornalismo adoraria estar.

E segue a dita cuja da minha matéria:

Após ciclovia na calçada, moradores da Vila Progresso perdem espaço de pedestre

Área para ciclistas, em Itaquera, invade passeio público e conflita com paradas de ônibus

Ciclovia da Rua Cardon, Vila Progresso (Vander Ramos/CLN)
Ciclovia da Rua Cardon, Vila Progresso (Vander Ramos/CLN)

O bairro da Vila Progresso, zona leste de São Paulo, ganhou uma ciclovia há cerca de um mês. A calçada da Rua Cardon foi estendida em mais de um metro para receber a pista exclusiva aos ciclistas. Mas apesar disso, depois de instalada, moradores e motoristas perceberam que o projeto foi um mal negócio.

O passeio público foi comprometido na maior parte da ciclovia, o pedestre tem aproximadamente 40 centímetros para caminhar e os postes de iluminação agora são obstáculos. Para ser ampliada, a calçada que continua sem espaço suficiente para todos, ainda piorou o trânsito devido ao estreitamento da via. Além disso, a ciclovia passa por cima de faixas de pedestres, cruza vários pontos de ônibus, podendo provocar acidentes entre ciclistas e munícipes que esperam pelo transporte público.

“Agora só tem espaço para uma pessoa de cada vez. A ciclovia é nova, mas já tem um bom número de ciclistas, principalmente à noite. A gente paga imposto para ter calçada e ciclovia. Não só ciclovia. Um cadeirante não consegue passar aqui. Como arranjar uma solução agora?”, reclama Roberto Alexandre Rocha (43), morador e comerciante da rua Cardon.

A Prefeitura possui um programa chamado Passeio Livre instituído pelo Lei nº 15.442 de 2011, para conscientizar a população de que é importante construir, recuperar e manter as calçadas da cidade em bom estado, melhorando a paisagem urbana, garantindo o passeio público, a socialização dos espaços públicos e a acessibilidade de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. A própria Lei determina que os pedestres devem ter garantido ao menos 1,20m de passeio livre.

Para a moradora Carla Guedes (37), é a Prefeitura quem não está conscientizada nesse caso. “Em primeiro lugar, não deveria ser na calçada. Nos outros lugares a ciclovia fica na rua. O Prefeito quer mostrar o projeto dele dando certo, mas ele tem que acompanhar o que está sendo feito. Eu mesma já salvei uma senhora de ser atropelada por um ciclista esses dias”, diz.

Durante visita do Prefeito Fernando Haddad e do Secretário de Transportes, Jilmar Tatto, ao Jardim Helena, distrito vizinho, Haddad disse à CLN que desconhece tal situação e ao ouvir a explicação do Secretário ficou surpreso. Já o Secretário afirmou que, na verdade, a execução do projeto na Rua Cardon foi diferenciada, porque “era uma concepção antiga de colocar a ciclovia próxima a calçada e que depois optamos pela via”.

Sobre os pontos de ônibus, Tatto respondeu que a própria ciclovia terá semáforos para que os ciclistas fiquem mais atentos e não causem atropelamentos

A CET (Companhia de Engenharia e Tráfego), órgão responsável pela implantação de ciclovias e ciclofaixas na cidade de São Paulo diz em nota: A CET informa que a ciclovia na Rua Cardon consiste na rede cicloviária que está sendo estruturada, pela Subprefeitura de São Miguel Paulista e pela CET, na região do Jardim Helena, na Zona Leste da cidade. A Rua Cardon integrará o primeiro trecho dessa rede, com 3,7 km de extensão passando também por outras vias próximas, como a Rua Criúva e as avenidas Moacir Dantas Itapicuru e Dep. Dr. José de Aristodemo Pinotti. Na Rua Cardon, a ciclovia será bidirecional entre as ruas Suzana e Criúva ocupando parte da calçada, que antes foi alargada em obra feita pela Subprefeitura de São Miguel Paulista. Essa ciclovia ainda não foi inaugurada pela Prefeitura.

Publicada na CLN

Por Renata Asp.

Perfil de Renata Asp

Renata Asp

A jornalista Renata Asp tem 23 anos e é formada desde 2012. Hoje trabalha como freelancer e é correspondente do Mural da Folha de S. Paulo há dois anos. Ela já trabalhou por dois anos no Diário de S. Paulo, atuou com jornalismo automotivo em revista B2B e também foi jornalista na CLN (Central Leste Notícias), um veículo e agência de notícias focado na zona leste da capital. A paulistana conta que procura manter um olhar sensível e questionador diante de episódios cotidianos muitas vezes julgados como condições normais à sociedade. Diz também que suas inspirações vêm da periferia.

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