Relação entre ciência e imprensa não é linear, diz Paulo Artaxo

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O pesquisador em mudanças climáticas Paulo Artaxo, que também é representante do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e professor do Instituto de Física da USP, participou da abertura do 7º curso “Descobrir a Amazônia, Descobrir-se Repórter”, módulo do Projeto Repórter do Futuro, realizada sábado, 04/04.

Durante o curso, 25 estudantes de diferentes faculdades participarão de palestras, conferências e coletivas de imprensa com especialistas de diferentes áreas do conhecimento relacionadas à Amazônia. Os encontros são realizados no novo auditório do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo).

Professor Paulo Artaxo e os estudantes (FOTO: Nivaldo Silva)
Professor Paulo Artaxo e os estudantes (Foto: Nivaldo Silva)

Paulo Artaxo falou sobre as alterações climáticas globais, causadas principalmente devido à emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, e sobre como as mudanças no uso do solo amazônico afetam o ecossistema.

Ele afirma que a Amazônia é complexa, e que não deve ser vista como um espaço homogêneo. “Não adianta olhar apenas por cima ou microscopicamente. Só compreendemos a floresta, se a analisamos desde a escala planetária até sua escala de bacia. A Amazônia possui um ecossistema único em relação aos outros do planeta. Todos os seus processos estão interligados e, se algum lugar da região for alterado, a estabilidade do ecossistema também será, afetando o globo inteiro”, afirma o professor.

No momento da conferência de imprensa, Artaxo orientou os estudantes a serem cautelosos com a divulgação de informações científicas. “Quando a imprensa trabalha com a questão da divulgação de resultados científicos, é preciso levar em conta que não existe precisão absoluta em ciência, além de não tratar essas incertezas como uma deficiência. A incerteza é inerente ao processo científico”, pondera.

Florestan Fernandes Jr. - Diretor da TV Brasil em São Paulo
Florestan Fernandes Jr. – Diretor da TV Brasil em São Paulo (Foto: Nivaldo Silva)

Florestan Fernandes Júnior, Gerente-executivo da TV Brasil em São Paulo, também esteve presente na apresentação e ressaltou que o ritmo alucinante das redações e a falta de preparo profissional, em alguns casos, acabam deturpando anos de trabalho científico no momento de divulgar a informação.

“No sistema capitalista, a notícia é vendida como um produto a ser consumido. Em alguns casos, o trabalho de anos acaba diluído e deturpado em função de manchetes sensacionalistas que querem garantir a venda de jornais, revistas e reportagens. Outra questão é a falta de especialização dos profissionais da notícia no Brasil. Poucos são os jornalistas que investem no conhecimento de uma área especifica, garantia de informação correta e de preservação da credibilidade da fonte. Tudo isso tem levado muitos cientistas a se fecharem em seus gabinetes e laboratórios com receio de verem seus trabalhos explorados de maneira sensacionalista. É por isso que a maioria deles batalham para publicar seus trabalhos em prestigiadas revistas científicas do mundo, como Nature, Science, por exemplo”, diz Florestan.

“Além de ler muito sobre o tema de uma reportagem ou entrevista, o jornalista do dia a dia deve checar toda a informação com o cientista e também com outras fontes. No caso de matérias cientificas todo rigor é pouco”, finaliza.

Pedro Ortiz coordenador do Módulo Amazônia
Pedro Ortiz coordenador do Módulo Amazônia. (Foto: Nivaldo Silva)

Segundo o jornalista Pedro Ortiz, que também é professor e coordenador do curso, a interação entre ciência e sociedade é essencial na cobertura feita dos assuntos ligados à ciência. “O jornalismo de ciência não deve ser voltado apenas para a divulgação de resultados. É importante que as descobertas sejam comunicadas, mas também é fundamental que a sociedade interaja e compreenda esse conhecimento. E o jornalista é o canal para fazer essa mediação social, ele não deve ser apenas um “tradutor” da linguagem científica para a não-científica”, diz Ortiz.

Em seu artigo “Jornalistas e pesquisadores: a parceria mais do que necessária”, o professor da ECA-USP e especialista em jornalismo científico, Wilson da Costa Bueno, diz que “a formação dos jornalistas e divulgadores ainda é deficiente, sobretudo porque a maioria dos cursos de Jornalismo não incorpora ao menos uma disciplina ou espaço regular para o estudo, a pesquisa e a reflexão que contemplem o processo de divulgação científica. Isso quer dizer que encontrarão dificuldade para contextualizar os grandes temas científicos e, sobretudo, para enxergá-los a partir de uma perspectiva crítica”, explica Bueno.

Ainda segundo ele, “a divulgação científica e, em particular o jornalismo científico, precisam ser mais investigativos, tentando enxergar além da notícia. Redações acomodadas, pressão de anunciantes e falta de capacitação dos jornalistas reduzem a cobertura de ciência e tecnologia à mera reprodução de falas e releases, comprometendo a sua credibilidade”, declara o professor em “Um jornalismo mais investigativo para a divulgação científica”, outro artigo de sua autoria.

Por Eduardo Rodrigues.

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Perfil de Eduardo Rodrigues

Edu
Eduardo Rodrigues (Foto: Flávio Nascimento)

Eduardo Rodrigues, 20, é estudante de jornalismo da FAPSP (Faculdade do Povo de São Paulo) e aluno do “7º curso Descobrir a Amazônia, Descobrir-se Repórter”, do Projeto Repórter do Futuro.

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