Seminário da Folha discute jornalismo e comunicação em ano eleitoral

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(Foto: Alan Alexandrino)

A Folha de São Paulo promoveu nesta semana o ‘2º Encontro Folha de Jornalismo’. Durante três dias, foram debatidos quais são as perspectivas e os desafios do jornalismo para os próximos anos. O evento, que faz parte das comemorações pelos 97 anos do jornal paulista, recebeu, além de nomes da imprensa brasileira e internacional, personagens ligados à política.

Por conta dos horários da faculdade, consegui acompanhar apenas dois debates da segunda (19) e outros dois da terça (20). Mas mesmo assim acho legal compartilhar com vocês o que rolou por lá.

Minha expectativa para esse evento era enorme, tanto por saber que agregaria muita coisa na minha carreira, seja conhecimento ou mesmo a experiência, quanto pelo ambiente repleto de jornalistas desejosos em debater a profissão. Correr para chegar no horário e ganhar um crachá com meu nome junto com o da Folha (mesmo que seja apenas para um evento organizado por ela) foi gratificante. Mas, sem mais delongas, vamos ao evento.

(Foto: Alan Alexandrino)

William Waack e Gilmar Mendes

Dois nomes polêmicos, em mesas separadas, foram ouvidos no primeiro dia do evento. William Waack e o ministro Gilmar Mendes. O primeiro, demitido da TV Globo há dois meses, curiosamente participou da mesa que discutiu os limites do politicamente correto. O jornalista foi afastado da emissora por conta de um vídeo que repercutiu ano passado em que é visto fazendo um comentário racista.

No seminário, o ex-apresentador do Jornal da Globo não comentou se considerava justa ou não a sua demissão, mas declarou que considera “horrivelmente chato” o jornalismo televisivo. A plateia, por sinal, perguntou sobre quando ele assumiria o “Roda Viva”; mas ele, brincando, deu a entender que não tinha recebido proposta e disse que não sabia.

Waack questionou o politicamente correto: “correto para quem?”. Isso, segundo ele, depende do ponto de vista, da percepção de cada um. Usando o Muro de Berlim como exemplo, o jornalista mostrou que, dependendo da orientação, o muro poderia ser chamado de ‘muro da vergonha’ ou ‘barreira anti-fascista’.

A mesa contou também com a presença de Sérgio Rodrigues (Folha) e Carlos Maranhão (ex-Editora Abril), sob a mediação de Marcos Augusto Gonçalves (Folha), que fizeram colocações pertinentes ao debate, porém mostrando apenas um lado da questão, sem um contraponto.

Já na mesa em que participou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, participaram André Petry (da Veja) e Luís Francisco Carvalho Filho (advogado da Folha), sob a mediação de Maria Cristina Frias (da Folha). Ali foi debatida a relação entre fonte e jornalista.

O ministro, sempre muito criticado por suas decisões, (foi ele quem pôs fim à obrigatoriedade do diploma para jornalistas, por exemplo) criticou o vazamento público de informações. Segundo ele, a crítica não era quanto à divulgação da imprensa, mas ao vazamento em si. Entre outras coisas, o ministro ainda cutucou o governo Dilma Rousseff, dizendo que, se lembra de uma coisa boa do governo Dilma: a Lei de Acesso à Informação.

Ponto interessante desta palestra foi a pergunta da plateia sobre a demora para devolver um caso, referindo-se ao caso de Romero Jucá. Após a leitura, a pergunta feita foi aplaudida. O ministro chamou atenção para a quantidade de casos que o Supremo tem que dar atenção.

Cinco nuncas

O jornalista André Petry deu uma lista bem interessante para estudantes de jornalismo. São cinco “nuncas” que o profissional de jornalismo deve se atentar na relação com a fonte: nunca torne-se amigo, confidente ou conselheiro da fonte; nunca prometa o que não se pode cumprir; nunca esqueça que o papel da informação deve ser o interesse público, e não pessoal; nunca minta e, por fim, nunca acredite fielmente na fonte.

(Foto: Alan Alexandrino)

Ricardo Boechat e Nizan Guanaes

No segundo dia, duas grandes personalidades da comunicação estiveram no debate. O publicitário Nizan Guanaes (Agência África) e Ricardo Boechat (apresentador da rádio BandNewsFM e âncora do Jornal da Band, da TV Bandeirantes).

Nizan participou da discussão quanto aos novos formatos comerciais. O publicitário mostrou-se entusiasta do jornalismo. Disse que não acredita que o impresso acabará. Para ele, o papel para o jornalismo tem a mesma função que, por exemplo, um desfile de moda tem para a moda. A manutenção de um desfile para a moda e seu custo-benefício está na força e no gesto deste evento. Ele disse ainda que o jornalismo precisa de jornalistas irredutíveis. Que, quanto a inovações, é necessário sempre tentar, que é melhor ter novos erros do que uma imprensa imobilizada.

O debate, que teve a mediação de Vinícius Mota (da Folha) e presença de Daniel Conti (da VICE) e Cleusa Turra (do Estúdio Folha), tratou sobre os novos modelos. Para Daniel, o público consegue diferenciar um conteúdo patrocinado de um editorial.

Cleusa, do Estúdio Folha, apresentou esse setor da Folha de S.Paulo, que é separado e independente da redação jornalística. O Estúdio Folha cuida de projetos patrocinados com foco em conteúdo para empresas e existe há dois anos. Daniel, da VICE, diz que os projetos patrocinados são chamados de ‘Brand Publishers’ e também defende uma redação independente.

A polêmica capa de três importantes revistas com publicidade do governo em referência à Reforma da Previdência foi questionado pela plateia. Os presentes defenderam a transparência por parte dos veículos. Cleusa, do Estúdio Folha, diz que a Folha possui um comitê que analisa os tipos de publicidade que podem ou não ser veiculadas.

Por fim, a mesa com Ricardo Boechat foi a mais festejada das que eu pude acompanhar. A expectativa da plateia se deu pela figura carismática do âncora do Jornal da Band. O tema da mesa foi a era em que vivemos, considerada por alguns como a “era dos extremos”. O uso da palavra “extremos”, por sinal, foi questionada por Boechat. Ele criticou também a expressão ‘Fake News‘, sempre conhecida simplesmente como “mentira” e já foi muito mais perigosa do que se estima atualmente.

O jornalista deu alguns outros pitacos, entre eles sobre se as tais ‘Fake News‘ tiveram peso na vitória de Trump ou se o empresário se elegeu porque uma parcela considerável do eleitorado se identifica com ele.

Boechat é esperançoso quanto ao futuro graças à grande mobilização popular que vem crescendo e eclodiram em 2013. E disse ainda que o jornalista deve abrir mão do protagonismo.

A mesa contou com mediação da ‘ombudsman‘ da Folha, Paula Cesarino, e os convidados Marian Cristina Fernandes (Valor Econômico) e Joel Pinheiro da Fonseca (da Folha).

Minha experiência

Enfim, participar deste evento foi uma grande experiência, apesar de entender que o evento é focado em um jornal tradicional. Digo isto porque fui a um evento há alguns meses em que a proposta era totalmente diferente. Os debates do Festival 3i, realizado em novembro de 2017 no Rio de Janeiro, eram voltados para o novo jornalismo e o jornalismo independente. E que, no final, deixou todos motivados a tentar fazer algo em prol do bom jornalismo. No evento da Folha, os velhos rostos parecem que ainda dão as caras neste meio.

Por Alan Alexandrino

Perfil do Autor

Alan Alexandrino, 21 anos, estudante do sétimo semestre de jornalismo na Universidade Paulista – UNIP. Mantenho há dois anos um blog sobre esportes (www.oalanbrado.com.br) e trabalho há três em uma agência de marketing digital.

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