Fazer a diferença na vida de alguém me motiva a ser jornalista, diz Sheila Magalhães

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"Conseguir ler com olhar e ouvidos de jornalista é super importante", aconselha Sheila Magalhães (Foto: Divulgação)
"Conseguir ler com olhar e ouvidos de jornalista é super importante", aconselha Sheila Magalhães (Foto: Divulgação)
“Conseguir ler com olhar e ouvidos de jornalista é super importante”, aconselha Sheila Magalhães (Foto: Divulgação)

A Editora Executiva de Redação e âncora da BandNews FM, Sheila Magalhães, concedeu uma entrevista para a Casa dos Focas na qual contou um pouco sobre a sua trajetória no jornalismo e deu dicas para os focas que pretendem trabalhar na redação de uma rádio. Confira a entrevista na íntegra:

Casa dos Focas – Por que você optou pelo jornalismo?
Sheila Magalhães –
Eu escolhi jornalismo, porque eu gostava de escrever. Eu achava que eu sabia escrever, mas eu não sabia escrever, eu sabia língua portuguesa, o que é bem diferente. Mas essencialmente foi por isso. Foi uma escolha muito nova, eu tinha 17 anos, e acho que as pessoas quando tem 17 anos não estão cem porcento certas daquilo que elas querem, aliás, será que em algum momento da vida a gente está certo do que a gente quer? Então foi muito por isso, foi porque eu gostava de escrever e gostava de ler. Basicamente isso.

Casa dos Focas – E como você foi parar no rádio? Você já esperava por isso?
Sheila Magalhães –
Não, nunca esperei. Foi um acidente, mas desses bons acidentes da vida, porque eu comecei estagiando na Reuters, que é uma agência de notícias, por seis meses. Eu ainda fiz um período de estágio, porque eu me formei na Cásper Líbero, no próprio prédio da Gazeta, na TV Gazeta. Foram mais seis meses, daí quando eu completei 19 anos eu estava no segundo ano da faculdade, tinha um anúncio desses de mural de faculdade, “procura-se estagiário para a Rádio Bandeirantes”, eu pensei: “Vou lá né?”. Aí eu mandei o currículo, e me chamaram, eu estava de férias, fora de São Paulo e disse: “Vou lá”. Naquela época nem era para trabalhar na redação, mas era para trabalhar no centro de documentação e memória da Rádio Bandeirantes. Que era e ainda é comandado pelo Milton Parrón. Eu falei, nossa mas é um trabalho de decupar sons antigos, arquivos muito antigos. Mas eu disse: “Eu quero”. Daí passei seis meses nesse centro de documentação e memória da Rádio Bandeirantes. Rapidamente passei para redação, como estagiária, como rádio escuta, checadora, depende de onde for esse nome é diferente, ali checando as principais informações da cidade, então, polícia, bombeiros, CET. E aí fui crescendo dentro da Rádio Bandeirantes, até que em 2006 fui para a Rádio Band News FM.

Casa dos Focas – E quais foram as principais dificuldades que você encontrou ao longo da sua carreira?
Sheila Magalhães –
Poxa, são muitas, pois é uma profissão que exige muito da gente, e é muito tempo que ela exige também. Tempo em horários muito malucos. Você precisa naturalmente abdicar um tanto da sua vida pessoal. Você está vendo, você está aqui, são dez horas da noite e você está aqui fazendo isso. Tá então, essa é a realidade de quase todo o dia, a depender do caminho que você percorre. Se for um repórter, repórter em geral, e eu fui repórter por alguns anos, é duro. É uma rotina que você precisa abdicar muito da sua vida pessoal, e precisa estar pronto para isso, se preparar para isso ou no mínimo saber disso. Acho que tem uma dificuldade que é natural em qualquer profissão, que é da inexperiência, em que você vive determinadas situações em que, eu sei hoje, por exemplo, que eu não tinha talvez preparo emocional para encarar, mas que serviram sem dúvida nenhuma de aprendizado, de experiência, de crescimento profissional.

Casa dos Focas – Em algum momento você já pensou em desistir do jornalismo e ir para outra profissão?
Sheila Magalhães –
Várias vezes, porque essa é uma profissão em que o reconhecimento demora a vir e não vem em alguns casos. Ou ele vem de maneira não expressiva, o que quero dizer com isso é que os salários não são bons, não são altos, diante do tamanho da entrega que você tem que ter para a profissão. Então em vários momentos eu falei assim, “nossa, eu não sirvo para isso”, ou “eu não quero mais abdicar tanto da minha vida pessoal”. E até assim com um pouco de maturidade, dependendo dos caminhos que você percorre, você consegue encontrar, eu não digo nem um meio termo, mas um terço de termo, porque o meio termo seria dividir a vida pessoal e a profissional, o que não é bem a verdade. Mas você encontra um pouco mais de tranqüilidade mental, física para encarar esse baita desafio.

Casa dos Focas – E o que te motiva fazer jornalismo diário?
Sheila Magalhães –
No meu caso acho que tem duas coisas centrais que me motivam fazer jornalismo. A primeira é poder fazer diferença na vida de alguém. É curioso porque quando a gente fala assim “Porque estudante de jornalismo quer mudar o mundo”, e eu nem acho que a gente tem essa pretensão mesmo não. Quando você descobre que talvez você não consiga mudar o mundo, mas que você consegue mudar o dia daquela pessoa, o caminho daquela pessoa com uma informação, “não vá pela marginal, vá por tal caminho”, pronto, você pode fazer a diferença na vida de alguém, com uma simples informação, comprando uma briga por ela, porque muitas vezes o que a gente faz é comprar a briga de alguém. Alguém que não tem voz, e que fala “olha tem um buraco aqui na minha rua e a sub-prefeitura dá de ombros para mim” e a gente vai lá e ao expandir e fazer ecoar esse discurso, faz com que essa pessoa que não tinha força nesse discurso, tenha voz realmente, que a sub-prefeitura possa resolver o problema dessas pessoas, enfim, ser o intermediador disso, acho que exige muito compromisso, mas também muito envolvimento com as pessoas, e eu acho que esse é um dos grandes motivadores do jornalismo. E outro motivador, no meu caso, é ver talentos desenvolvidos. Quando você vê alguém assim, cometendo os mesmos erros que você cometeu um dia, cru, se desenvolvendo, aprendendo, não cometendo o mesmo erro no dia seguinte, falando melhor, se expressando melhor, escrevendo melhor, poxa não tem nada mais recompensador do que isso, poder fazer a diferença na vida de alguém, não importa se esse alguém é um ouvinte ou um profissional da equipe.

Casa dos Focas – O que você como “recrutadora” vê de principais dificuldades apresentadas pelos estudantes de jornalismo e recém-formados que aparecem para trabalhar na redação da rádio?
Sheila Magalhães –
Há algo que eu acho muito ruim na verdade, é a falta de leitura de parte desses estagiários ou de estudantes que chegam lá sem nenhum repertório, ou com pouquíssima informação ou com baixíssima formação geral. É claro que repertório é algo que você forma ao longo da vida, não tenho dúvida disso, mas com baixíssimo conhecimento geral. Eu me assusto às vezes inclusive com as provas… Na BandNews FM a gente adota algumas técnicas de aprovação de candidatos, e eu me assusto bastante com a formação geral. Porque a gente tem perguntas como “quem é o presidente do senado e quem é o presidente da câmara” que acho que são tão triviais, e que deveriam ser de conhecimento do estudante de jornalismo, e entretanto a gente lê de tudo. Isso é determinante para a formação de um bom profissional? Não! Não é determinante, mas ter conhecimento geral, ter um bom repertório, pelo menos de referências históricas ou referências literárias, faz muita diferença. E aí eu entro em uma outra esfera, que além do conhecimento, que é comportamental, às vezes há estudantes que chegam sem muito compromisso, sem vestir muito a camisa, quer dizer, que não estão ali com a gana e com a garra necessárias, que a nossa rotina exige. Então eu acho que esses dois elementos, essas duas características às vezes atrapalham o caminho de alguém que quer começar nessa carreira.

Casa dos Focas – Que conselho você dá para nós estudantes de jornalismo para sermos bons jornalistas?
Sheila Magalhães –
Leiam bastante. Ler, ler, ler. Ler nos ajuda a escrever bem. E procurem assistir, ouvir e ler, reportagens, artigos, e tal. Um pouco com o olhar, com ouvidos de jornalistas, que é “olha só como ele escreve”, “porque aqui ele usou isso e não aquilo”. Isso é legal, isso é importante. A gente aprende muito por cópias de modelos que funcionam, para depois você criar uma identidade própria. Acho interessante para quem está começando se espelhar em alguém, ter algumas pessoas como referências mesmo. Conseguir ler com olhar e ouvidos de jornalista é super importante.

Por Emílio Portugal Coutinho

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