Um furo dá barriga, já uma barriga…

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É incomum começar um texto resumindo o assunto, mas neste caso posso esclarecer logo que “furo” é sinônimo de felicidade e “barriga” é o mesmo que fracasso para qualquer jornalista. Um furo pode se transformar em uma barriga, mas uma barriga nunca será um furo. Tecnicamente a barriga ocorre quando o jornalista divulga uma informação equivocada. Enquanto o furo é o resultado da criação de uma pauta relevante e inovadora e de uma investigação plena para a construção da notícia e sua divulgação exclusiva.

Bob Woodward e Carl Bernstein
Bob Woodward e Carl Bernstein

Um exemplo de furo bastante famoso no meio jornalístico é o caso Watergate. Em 1972, os jornalistas norteamericanos Bob Woodward e Carl Bernstein, investigaram afundo a tentativa de cinco pessoas de fotografar documentos e instalar escutas no comitê do partido Democrata, opositor ao então presidente Richard Nixon. Após meses de apuração, os jornalistas do Washington Post descobriram que Nixon estava envolvido na espionagem, o que resultou na renúncia do presidente.

É fato que para o furo acontecer é preciso tempo e muita apuração, condições cada vez mais raras no rádio e nas redações de TV e impresso, já que a demanda por notícia aumenta, mas a qualidade diminui. Além disso, ainda há o fator exclusividade, muito afetado pela rapidez em que as informações são divulgadas – seja por profissionais da área, seja por indivíduos envolvidos com a notícia – acabando por expor a pauta para outros veículos.

Um caso nacional de barrigada é o da revista Veja que, em 1983, publicou uma notícia científica, retirada da revista inglesa New Science, como sendo verdadeira, quando, na verdade, se tratava de uma brincadeira do dia 1º de Abril (Dia da Mentira). O problema maior é que a notícia sequer parecia real. De acordo com a publicação inglesa, dois biólogos de Hamburgo, na Alemanha, teriam fundido pela primeira vez células animais com células vegetais – as de um tomateiro com as de um boi – formando o “boimate”.

Barriga publicada pela revista Veja em 1983 - O Boimate
Barriga publicada pela revista Veja em 1983 – O Boimate

Enfim, por si só a notícia já era um blefe. E serve para comprovar que este tipo de equívoco é passível de acontecer com qualquer profissional de qualquer veículo. Por isso mesmo a atenção de nós jornalistas deve ser redobrada no momento de transformar uma informação em notícia. É preciso levar em consideração sua relevância social, questionar todos os lados envolvidos e se atentar para dados e números informados.

Por desatenção, já cometi uma barriga por divulgar um valor errado da construção de uma creche. Na hora de digitar o investimento coloquei um zero a mais nos números e foi publicado sem alteração. Dá pra imaginar o sufoco quando perceberam? Pois é, atenção nesses casos nunca é demais. Mas desatenção, pressa e/ou preguiça podem ser o suficiente para arruinar uma matéria inteira. Afinal, qualquer jornalista pode cometer uma barriga, já um furo…

Leia também: Princípios de um bom jornalismo

Por Andreza Galiego.

Fontes consultadas:

– http://veja.abril.com.br/30anos/p_114.html
– http://www.humornaciencia.com.br/noticias/boimate.htm
– Filme “Todos os homens do presidente”, de 1976.

Perfil de Andreza Galiego

 

Andreza Galiego é estudante de Jornalismo e estagia na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Andradina, cidade onde mora. Aos 20 e poucos anos, terminando a faculdade, ainda vê a profissão como um meio de mudar o mundo, o próprio e o dos outros. Tem mania de discordar e gosta de pessoas estranhas. Estuda todo tipo de assunto que consegue no período em que está acordada, mas na maioria das vezes faz tudo dormindo mesmo. Escreve também no blog Jornalista sem Pauta. Achou incrível o convite para escrever no Casa das Focas e espera contribuir para o "descobrimento do jornalismo".
Andreza Galiego é estudante de Jornalismo e estagia na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Andradina, cidade onde mora. Aos 20 e poucos anos, terminando a faculdade, ainda vê a profissão como um meio de mudar o mundo, o próprio e o dos outros. Tem mania de discordar e gosta de pessoas estranhas. Estuda todo tipo de assunto que consegue no período em que está acordada, mas na maioria das vezes faz tudo dormindo mesmo. Escreve também no blog Jornalista sem Pauta. Achou incrível o convite para escrever no Casa das Focas e espera contribuir para o “descobrimento do jornalismo”.

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