A mãe do jornalismo chama-se inquietação, explica Roberto Cabrini

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Roberto Cabrini apresenta semanalmente o programa Conexão Repórter no SBT.
Roberto Cabrini apresenta semanalmente o programa Conexão Repórter no SBT. (Foto: Reprodução)

Com uma extensa lista de prêmios e reportagens investigativas, o jornalista Roberto Cabrini é um dos principais jornalistas investigativos do Brasil atualmente.

Aos 17 anos foi contratado pela TV Globo, sendo o repórter mais jovem do telejornalismo brasileiro. Seu início de carreira foi no jornalismo esportivo, mas foi na área investigativa que atingiu seu maior sucesso.

Durante os mais de 30 anos de carreira, o jornalista cobriu um total de cinco Copas do Mundo, cinco Olimpíadas e seis guerras internacionais: Afeganistão, Iraque, Palestina, Camboja, Caxemira e Somália.

Chegou a ser correspondente em Londres por quatro anos e em Nova York por mais quatro anos. E tendo atuado nas principais emissoras televisivas do país (Globo, SBT, Band e Record) conquistou os prêmios Esso, Líbero Badaró, Tim Lopes, Vladimir Herzog, APCA e Imprensa.

Publicamos abaixo a íntegra da entrevista que ele concedeu ao Portal Casa dos Focas.

*     *     *

Casa dos Focas – Como foi seu início na carreira e por que você optou pelo jornalismo?
Roberto Cabrini – Quando eu tinha 16 anos de idade eu gostava muito de comunicação em primeiro lugar, no colégio eu me destacava muito nas aulas de português, era sempre escolhido como orador diante da turma, mas fundamentalmente porque foi aquilo que mais me aproximou daquele sonho juvenil de mudar o mundo. Mudar o mundo através da demonstração do que está acontecendo, através da prova de irregularidades, enfim, aquele sonho de mudar o mundo, que é um sonho pretensioso, mas que é o que te move. De melhorar a vida das pessoas através do jornalismo.

Casa dos Focas – Você acredita que o jornalismo pode mudar o mundo?
Roberto Cabrini – Não resta a menor dúvida! O grande jornalismo não é aquele que é feito para que as pessoas pensem como você, mas é aquele que provoca reflexões e discussões. Ele tem potencial enorme, infinito, para provocar e para gerar reflexão e isso traz também muita responsabilidade. Um grande jornalista é aquele que une ousadia com o sentido da sua importância e da sua responsabilidade como comunicador.

Casa dos Focas – Todo jornalismo é investigativo?
Roberto Cabrini – Por excelência, mas existem tantos exemplos de jornalismo tendencioso, unilateral, raso, oficial, que se convencionou a chamar de jornalismo investigativo aquele que se aprofunda. Mas pode-se medir o grau de democratização de uma sociedade, de um país, pelo grau de jornalismo investigativo que esse país possui.

Casa dos Focas – Você já deixou de fazer alguma reportagem por causa de ameaças?
Roberto Cabrini – Ameaças são comuns, rotineiras no jornalismo investigativo. Eu costumo dizer que denunciados não mandam flores, denunciados intimidam, pressionam, processam, ameaçam. Mas isso faz parte da rotina, porque ameaça também ela demonstra que você está diante de um fato importante. O jornalista investigativo precisa conviver com tudo isso.

Roberto Cabrini e Emilio Coutinho
O jornalista Roberto Cabrini ao lado de Emilio Coutinho, autor desta matéria. (Foto: Arquivo Pessoal)

Casa dos Focas – Qual a lição que o Caso Escola Base deixou para o jornalismo?
Roberto Cabrini – A lição da responsabilidade que nossa missão tem. Da mesma forma que a gente tem que ousar, nada justifica a perda da responsabilidade. E esse exemplo que você citou é um grande exemplo de jornalismo apressadamente divulgado. Onde eu acho até que o repórter não foi o maior culpado, ele foi induzido ao erro. Mas de qualquer maneira mostra o quanto um jornalismo que não esteja devidamente apurado e alicerçado em fatos, pode prejudicar seres humanos.

Casa dos Focas – Você já pensou em mudar de profissão?
Roberto Cabrini – Jamais! Eu adoro isso. Acho que eu nasci repórter e vou morrer repórter. Acho não, eu tenho certeza!

Casa dos Focas – Qual a reportagem que mais lhe marcou?
Roberto Cabrini – Eu costumo dizer que a reportagem mais marcante na minha carreira é sempre a próxima. Eu me preparo dessa forma. Olha, são muitas né? Eu tenho trinta anos de profissão, coberturas de guerra, localização de fugitivos da justiça, como o PC Farias, Jorgina de Freitas Fernandes, a fraudadora do INSS, Roberto Osório, que roubou o depósito público do Rio de Janeiro, a matéria que denunciou a pedofilia na Igreja Católica, a matéria que denunciou a banda podre da polícia aqui em São Paulo, são matérias que marcaram muito, anúncio da morte do Ayrton Senna foi uma cobertura que me marcou bastante. É difícil você escolher uma só. Cada uma é como se fosse um filho. Na qual eu me dediquei muito, que demandou muito esforço, sacrifício, renúncia, mas essas matérias são matérias que deram para mim o combustível necessário para continuar numa carreira que é também muito sacrificante e que é muito desgastante.

Casa dos Focas – Que conselho que você dá para nós estudantes de jornalismo?
Roberto Cabrini – A mãe da profissão chama-se inquietação. Inquietação é tudo. Tem outras coisas também: iniciativa, ousadia, responsabilidade, tudo isso é muito importante também, mas um jornalista que não é inquieto jamais será um grande profissional.

Por Emílio Portugal Coutinho

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