Existe preconceito contra os deficientes no jornalismo?

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Não se deveria julgar os candidatos pela aparência física, mas, principalmente, por sua capacidade em desempenhar um bom trabalho. Foto: Pixabay
Não se deveria julgar os candidatos pela aparência física, mas, principalmente, por sua capacidade em desempenhar um bom trabalho. Foto: Pixabay
Não se deveria julgar os candidatos pela aparência física, mas, principalmente, por sua capacidade em desempenhar um bom trabalho. Foto: Pixabay

O último censo, divulgado pelo IBGE em 2010, apontou que 45,6 milhões de pessoas declaram ter algum tipo de deficiência no Brasil. Ou seja, 23,9% da população brasileira. A maior parte dessas pessoas vive em áreas urbanas. A deficiência visual foi a mais apontada, cerca de 18,8% da população. Em seguida vêm as deficiências motora (7%), auditiva (5,1%) e mental ou intelectual (1,4%).

Pode-se dizer que o Brasil possui um pouco mais de cidadãos com deficiência, do que a Argentina em sua totalidade (nossos hermanos tem por volta 41 milhões de habitantes).

O mercado de trabalho tem se adaptado para receber pessoas nessas condições, no entanto, ainda há, por parte de muitas empresas, um certo preconceito para empregar profissionais que apresentem alguma deficiência, seja ela qual for.

Exemplo disso é o jovem cadeirante João Santiago, de 23 anos. O cearense, que é estudante de Ciências da Computação, participou da Campus Party 2015, onde apresentou um aplicativo que informa sobre locais com acessibilidade para deficientes (principalmente cadeirantes).

“Um dia eu quis ir ao bar e fiquei receoso, pois não sabia se havia acessibilidade (banheiros, acesso), e não fui. Aí me veio à cabeça que muitos deficientes, como eu poderiam sofrer da mesma forma. Foi então que comecei a criar o aplicativo”, disse João Santiago.

“As empresas são obrigadas a contratar funcionários com deficiência, porém preferem os que apresentam deficiências ‘menos’ severas (surdo, mudo). Parece que a aparência diz se nós somos capazes ou não”, revela o estudante de forma emocionada e também indignada, pois sofreu muito preconceito por sua aparência física.

Jornalistas com deficiência

Uma profissão requer qualificação, não deveria se julgar os candidatos pela aparência física, mas, principalmente, por sua capacidade em desempenhar um bom trabalho. Ou seja, todos têm o seu espaço no mercado.

Não é diferente para os profissionais da comunicação (especificamente jornalistas), que são os mediadores das notícias.

Clarissa Guerretta, que é jornalista e fez a cobertura da Copa do Mundo de 2014 aqui no Brasil, é repórter de uma WebTV, onde grava seus boletins utilizando a linguagem de sinais. A repórter perdeu a sua audição, ainda criança (aos dois anos de idade), por conta da meningite. “Os surdos também são capazes de trabalhar como jornalistas. Estou feliz de mostrar que existe essa abertura”, afirmou Clarissa ao Portal Imprensa.

A novela “Viver a Vida” teve uma personagem que se chamava Luciana, interpretada pela atriz Aline Moraes. Escrita por Manuel Carlos, essa personagem foi inspirada na jornalista Flávia Cintra, que na época foi contratada para ser repórter do Fantástico, da TV Globo. Flávia ficou tetraplégica aos 18 anos e é conhecida por sua militância pelas causas das pessoas com deficiência.

Quem não se lembra da Repórter, que entrou para o RankBrasil em 2014, Fernanda dos Santos Honorato? Sim, ela foi a primeira repórter com síndrome de Down do país. Através do esporte e das artes Fernanda conseguiu desenvolver uma personalidade única para TV.

Desde 2006, ela trabalha para a TV Brasil, no Programa Especial. Mas foi no teatro que ela iniciou a sua trajetória. Ali, ela se destacou muito antes de embarcar nas telinhas. Também é dançarina (de dança cigana) e atleta da Sociedade de Síndrome de Down na modalidade natação.

Preconceito

Qualquer profissão requer dedicação, independentemente da área de atuação. Há, no entanto, uma série de questões que precisam ser estudadas no que diz respeito ao deficiente que queira ingressar na área da comunicação. Já se pode perceber que a condição não interfere na capacidade desses profissionais jornalistas, que têm algum tipo de deficiência e que exercem as funções nesse mercado. Existe um espaço para eles, entretanto, o mais comum é vê-los nos bastidores.

Para o jornalista Jairo Marques, “O ingresso, para profissionais com deficiência na TV, é extremamente restrito e praticamente inexistente". (Foto: Arquivo Pessoal)
Para o jornalista Jairo Marques, “O ingresso, para profissionais com deficiência na TV, é extremamente restrito e praticamente inexistente”. (Foto: Arquivo Pessoal)

O jornalista Jairo Marques, que é conhecido em todo o Brasil pelo seu trabalho na Folha de S.Paulo, é cadeirante. Ele é formado em jornalismo e pós-graduado em jornalismo social. Em seu blog “Assim como você”, Jairo produz textos irônicos sobre o seu dia a dia, principalmente, para chamar a atenção para essa causa, importantíssima, que é o descaso com pessoas que possuem algum tipo de deficiência. O mais interessante são as expressões que ele usa em seus textos, que acabam se tornando muito divertidos de se ler (não que seja engraçado ser deficiente, mas o texto é exatamente provocativo), pois as questões abordadas em seu blog são fundamentais para a sociedade entender o seu papel perante o contexto social de pessoas menos privilegiadas.

Jairo explica um pouco sobre a questão de deficientes na TV e expressa o seu ponto de vista. “O ingresso, para profissionais com deficiência na TV, é extremamente restrito e praticamente inexistente. Sei de pouquíssimas pessoas com deficiência atuando em grandes TVs. No vídeo, me lembro de apenas uma. A TV ‘exige’ uma imagem e, talvez, alguém interprete que pessoas com deficiência firam algum padrão. Em Londres, assisti programas de TV tocados por três âncoras com deficiência, por exemplo’’, explica.

“É difícil responder, no entanto, qual meio de comunicação é comum para profissionais com deficiência atuarem, pois até onde eu sei, na grande imprensa, são poucos, muito poucos. Nos grandes jornais impressos, trabalhando como jornalistas, não devem passar de cinco pessoas, embora o ofício possa ser realizado por pessoas com as mais diversas condições físicas e sensoriais”, completa.

Uma questão, que também é fundamental para a formação de cidadãos com deficiência, é a infraestrutura das instituições. Afinal de contas, a universidade é um espaço aberto a todos os públicos e, de antemão, deve ser adaptada para receber ingressantes que possuam limitações físicas, por exemplo.

“Acho que as universidades estão dispostas a receber alunos com deficiência e estão abertas a aprender junto. Penso que uma estrutura completamente acessível nunca vai existir. Isso se constrói de acordo com a realidade dos alunos que chegam, evidentemente, fornecendo o básico sempre (condições arquitetônicas, softwares etc)”, conclui Jairo.

Por Carlos Alves Siqueira

Perfil do Autor

Carlos Alves

Sou apaixonado por cinema e um admirador de Tarantino. Escolhi jornalismo para traçar um objetivo de me tornar um mediador de informações, de boas informações. Tenho 25 anos, trabalho no Jornal do Interior e sou colunista no site Imerso.tv. Sou graduando em história na FMU e amo o que faço. Sou nascido e criado em São Paulo, mas a essência é muito forte nas partes de cima do país. Filho de baianos e apaixonado pela cultura nordestina. Esse sou eu, Carlos Alves.

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