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Jornalismo na era do release

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No início, o jornalismo investigava todas as versões de qualquer informação. O jornalista consultava várias fontes para elaborar uma única notícia. Seu inimigo número um era o assessor de imprensa. Até que um dia surgiu o release. Aí o jornalista passou a receber matérias prontinhas, com foto, legenda, lead correto, títulos interessantes, linha fina e até no padrão pirâmide invertida. A partir de então, o jornalismo deixou de investigar a informação, aceitou uma versão só dos fatos e ainda sempre favorável ao envolvido. Conheceu a fonte oficial e esqueceu as outras e desde então idolatra o assessor de imprensa e vive cômodo para sempre.

Brincadeiras a parte, um dos maiores desafios do jornalismo hoje é reencontrar suas origens pós-release. Segundo José Marques de Melo, o press-release no Brasil surgiu por volta dos anos 60, como alternativa para o diálogo direto com jornalistas, devido a política quase em recessão, que deixou os governantes receosos. Discorro aqui sobre os releases governamentais porque são os mais utilizados pelos jornais, por duas razões: interessam ao público e são pagos.

Assim, jornais e governos uniram o útil ao agradável. O press-release foi a melhor forma dos órgãos públicos divulgarem seus feitos, ao mesmo tempo em que os jornais receberiam uma verba para publicação desses atos oficiais. Logo, as assessorias perceberam que se enviassem textos nos padrões jornalísticos, a probabilidade de serem publicados era maior. Mais que isso, poderiam ser divulgados exatamente como enviados, ou seja, do ponto de vista de seus autores.

Desde então as assessorias de imprensa governamentais passaram a se especializar na estrutura jornalística, contratando profissionais de comunicação para elaborarem releases no mesmo formato das matérias escritas pelos jornalistas. Assim, aos poucos, o release foi se transformando de uma simples sugestão de pauta para uma matéria pronta e muito bem feita. E já que era elaborado nos mesmos moldes das redações, os editores e jornalistas começaram a publicá-las na íntegra, afinal, tinham teor informativo.

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Entretanto os jornalistas demoraram a ser dar conta de que estavam sendo adestrados, pois receber frequentemente a notícia pronta os distanciava das fontes e ludibriava seus instintos investigativos. Todavia com o passar dos anos, os proprietários dos impressos estavam satisfeitos com o ganho da verba pública e notaram que não precisavam de tanta mão de obra. Resultado: alguns profissionais foram para a rua. Ora por vontade própria (discordando da prática). Ora por contenção de gastos. Enquanto outros aderiram pacificamente para evitar a fadiga.

Agora, com as assessorias mal-acostumadas, o problema persiste. Os jornais, mesmo mais experientes, continuam publicando releases na íntegra, mas sem informar devidamente seus leitores a respeito dessa prática. No fim, o leitor compra a informação a preço de isenta quando, na verdade, leva notícia propagandística. Hoje, talvez essa realidade seja mais óbvia em jornais menores e impressos do interior, porém continua sendo prejudicial ao jornalismo.

Os jornalistas precisam estar atentos para o quanto esses releases governamentais contribuem para um jornalismo informativo, mas não esclarecedor. Essas notícias apenas transmitem informações otimistas, das quais jornais e jornalistas se isentam da responsabilidade por erros ou incongruências, pelo simples motivo de estarem assinadas por terceiros. Apesar de ser evidente que o veículo é totalmente responsável pelo que divulga e que jornalismo é constituído por apuração excessiva e isenção.

Portanto fujamos das práticas tradicionais e tenhamos consciência do conteúdo noticioso transmitido ao leitor. Das duas uma: ou informamos claramente a eles que determinada notícia é propaganda ou aceitemos os releases de bom grado, mas apenas como sugestão e não imposição de pauta – lembrando aos assessores que os dados serão investigados por contra própria. Afinal, como diria Alberto Dines, “o leitor é a meta prioritária e absoluta do processo jornalístico, e não pode ser prejudicado”.

Por Andreza Galiego.

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Perfil de Andreza Galiego

Andreza Galiego é estudante de Jornalismo e estagia na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Andradina, cidade onde mora. Aos 20 e poucos anos, terminando a faculdade, ainda vê a profissão como um meio de mudar o mundo, o próprio e o dos outros. Tem mania de discordar e gosta de pessoas estranhas. Estuda todo tipo de assunto que consegue no período em que está acordada, mas na maioria das vezes faz tudo dormindo mesmo. Escreve também no blog Jornalista sem Pauta. Achou incrível o convite para escrever no Casa das Focas e espera contribuir para o "descobrimento do jornalismo".
Andreza Galiego é estudante de Jornalismo e estagiou na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Andradina, cidade onde mora. Aos 20 e poucos anos, terminando a faculdade, ainda vê a profissão como um meio de mudar o mundo, o próprio e o dos outros. Tem mania de discordar e gosta de pessoas estranhas. Estuda todo tipo de assunto que consegue no período em que está acordada, mas na maioria das vezes faz tudo dormindo mesmo. Escreve também no blog Jornalista sem Pauta. Achou incrível o convite para escrever no Casa das Focas e espera contribuir para o “descobrimento do jornalismo”.

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Andreza Galiego
Andreza Galiego é jornalista recém-formada à procura do emprego dos sonhos e de uma pós-graduação. Aos 20 e poucos anos, ainda vê a profissão como um meio de mudar o mundo, o próprio e o dos outros. Tem mania de discordar e gosta de pessoas estranhas. Estuda todo tipo de assunto que consegue no período em que está acordada, mas na maioria das vezes faz tudo dormindo mesmo. Escreve também no blog Jornalista sem Pauta. No dia 2 de março de 2013 achou incrível o convite para escrever no Casa das Focas. Agora, um ano depois, não vê a hora de parar. Brincadeira. Está cada vez mais agradecida por fazer parte desse espaço incrível e contribuir para o “descobrimento do jornalismo”.
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