InícioBiblioteca Foca“Minha Razão de Viver”, resenha da autobiografia de Samuel Wainer

“Minha Razão de Viver”, resenha da autobiografia de Samuel Wainer

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Não é possível contar a história da imprensa, ou mesmo do Brasil, sem citar o nome de Samuel Wainer. O jornalista nascido na Bessarrábia, região da Europa Oriental, foi testemunha ocular dos episódios políticos das décadas de 40, 50 e 60.

Em sua autobiografia, Wainer narra fatos marcantes da trajetória do judeu do Bom Retiro, como se auto-intitulava; das ruas esburacas do bairro paulistano as salas do palácio do Catete; do compartimento de navio de imigrantes ao tribunal de Nuremberg.

A família Wainer desembarcou nas Terras Tupiniquins em 1919, quando o futuro jornalista tinha apenas seis anos de idade. Seu pai quis que cursasse Farmacologia. No entanto, logo percebeu que aquela não era a sua área. Abandonou o curso e aterrissou no centro dos acontecimentos do Brasil: o Rio de Janeiro. Conheceu figuras tarimbadas do Jornalismo e recebeu as primeiras oportunidades.

Wainer sempre teve contato com setores do Partido Comunista. Foi assim, por meio de sua perspicácia, aliado à competência, que mudaria os rumos do País, fundando, em 1938, a ‘Revista Diretrizes’ – bunker de resistência à ditadura varguista.

Em tempos de Estado Novo, Wainer soube como poucos contornar a censura do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) sem deixar de veicular a opinião dos colaboradores. Na Segunda Guerra, a revista exerceu papel preponderante na resistência contra o Eixo enquanto Getúlio Vargas (presidente do Brasil na época) “namorava” os nazistas.

Não demorou muito para Vargas fechar a revista e “despachar” o jornalista do País. A manjada frase “há males que vem para bem” resume a experiência de Wainer no exterior. Como correspondente, atuou no Jornal ‘O Globo’, nos Estados Unidos. Atravessou o Atlântico, tornando-se correspondente freelancer.

Sua astúcia e seu faro jornalístico o levaram aos tribunais de Nuremberg – célebre julgamento ocorrido depois da Segunda Guerra que condenou nazistas do alto escalão. O único jornalista latino-americano a cobrir o episódio ganhou respaldo internacional.

O barão da imprensa, Assis Chateaubriand, contratou Wainer para os seus Diários Associados. Assim, ganhou a confiança de Chatô, que o trouxe de volta ao Brasil. Sua competência seria mais útil aqui, como comprovaria os acontecimentos posteriores.

Wainer guardava impressões negativas de Chatô, principalmente quanto a sua conduta ética. Geralmente, Chatô tecia críticas de acordo com os ventos incertos da política, aproveitando a grande influência das cadeias Associados para negociar apoios. Além disso, tratava seus empregados com grande desprezo.

Na produção de uma matéria sobre plantações de trigo no sul do Brasil, Wainer noticiou o maior furo da história da imprensa brasileira: a volta de Getúlio Vargas. Após a saída da presidência e o fim do Estado Novo, Vargas estava recluso em São Borja, apesar de ter sido eleito senador com grande votação. No voo pela região, o jornalista decidiu tentar entrevistar o ex-presidente. Surpreendentemente, Vargas estava disposto a falar.

A entrevista esgotou as edições dos jornais de Chateaubriand e caiu como bomba no cenário político brasileiro: Getúlio iria se candidatar às eleições de 1950. A imprensa ignorou completamente a figura do candidato, com exceção de Wainer. No entanto, a força popular elegeu o presidente das massas.

O grande desprezo da imprensa em relação a Vargas fez florescer a ideia de dar um jornal a Wainer. Assim nasceu a ‘Última Hora’, que logo alcançou grande circulação, trazendo inovações gráficas e de conteúdo.

A luta contra o varguismo se acentuou com Carlos Lacerda. É histórico os embates entre os lacerdistas e os apoiadores de Wainer. Lacerda apelou para o fato de Wainer não ser brasileiro. Estrangeiros não podiam ser donos de jornais. Wainer chegou a ser preso, mas logo foi libertado.

Após o suicídio de Vargas, o ‘Última Hora’ estava a um fio. Porém, Wainer conseguiu contornar a situação e mantê-lo até 1964, quando foi fechado pelo Regime Militar. O jornalista ainda acompanhou outros dois presidentes: Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Em seus relatos, Wainer não esconde os mandos e desmandos na política e a relação com o poder, como o de empresários que financiavam seu jornal. Deixa claro o fato de nunca ter colocado nenhum recurso no seu bolso: as receitas eram sempre reinvestidas no ‘Última Hora’.

Sem dúvida, foi um jornalista à frente do seu tempo. Não considerava o jornalismo mera profissão, mas sim algo nobre, capaz de mudar o futuro da nação. Soma-se a isso o texto claro e o estilo refinado, que nos convida a entender essa personalidade complexa em um período complexo.

Por Renan Dantas dos Santos

Perfil do Autor

Renan Dantas dos Santos tem 20 anos e atualmente cursa o 3º Semestre do curso de Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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