O barulho mais gostoso do meu mundo

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(Foto: Pixabay)

“Como eram as redações dos jornais de antigamente? ” – me pergunta o Casa das Focas, essa ideia maravilhosa que fala e discute Jornalismo com pessoas que querem ser jornalistas. E, por que não dizer, com jornalistas formados, atuantes no mercado, professores, um mundo de gente interessada no assunto e que curte ser sempre um pouco Foca. É bom ser Foca, a gente aprende muito. O mundo precisa cada vez mais de Focas com vontade de aprender.

Meio alegre e meio triste o tema me leva para os tempos e templos onde eu adorava viver, pensar, sonhar, buscar, criar, escrever, comentar, discutir e acima de tudo aprender. Quanta emoção eu vivi, quanto medo, quanto pânico, quanto riso, quanta curiosidade. Momentos indescritíveis e inenarráveis. Conheci e convivi com o que havia de melhor no Jornalismo da época. Que talvez tenha sido a última época, creio eu, do Jornalismo autêntico e memorável do Brasil. E do mundo, por que não? Pelo menos esse é o Jornalismo que vive dentro de mim.

Jornalismo onde o repórter era omnipresente, ou seja, ia mesmo para os locais dos crimes. Ou dos assuntos, das matérias. Ia procurar o vivente ou o sobrevivente. Ia ver o que havia e o que tanto reclamava aquele povo que chamava a reportagem. Às vezes por causa de um buraco na rua. Ou do ônibus que demorava para passar. Ou do vizinho que vivia perturbando o bairro.

Tudo sempre foi motivo, tudo sempre foi e continua sendo notícia. As pessoas que tanto querem notícias é que são a notícia. Incrível isso, não? Naquele tempo o repórter era obrigado a ir. A constatar. A encarar. A cheirar, a viver a hora, o local, o crime ou o sucedido e acontecido. Naquele tempo nem era colisão, era trombada de veículos mesmo…

(Foto: Pixabay)

Falar naquele tempo é falar também nos chamados “plantões de polícia”, vejam só… Plantões de Polícia com repórter que ficava 24 horas na Central de Polícia. Sim, naquele meu tempo ainda havia a Central de Polícia que funcionava no Pátio do Colégio, centro de São Paulo. O mesmo Pátio do Colégio que hoje eu nem reconheço mais…

Isso me lembra que naquele tempo tinha até o Nicolau Chaui no plantão. Isso mesmo, Chaui, pai da filosofa (é isso?) Marilena Chaui. Grande Nicolau Chaui. Passava todas as madrugadas na Central, catando notícias, catando coisas curiosas para levar logo cedo para a redação dos Diários Associados, que ficava na rua Sete de Abril, 240, se é que não me engano. E eu não posso, não quero e nem devo esquecer do grande Cascolac. Quem era o Cascolac? O fotógrafo que acompanhava o Chaui no plantão das madrugadas. Devo a ele e suas fotos, uma das maiores histórias que eu já escrevi. Mas isso já é outra história. Quem sabe eu conte outra hora.

Crimes, pancadarias, acidentes, o diabo a quatro ou a cinco que acontecessem na cidade ou nos arredores eram assuntos corriqueiros e super aguardados na redação dos Diários Associados que ficava na rua Sete de Abril, 240.

Eu vivi isso e um pouco desse tempo. Sim, eu sei que tudo mudou. Mudou até a Sete de Abril. Nunca mais passei por lá, pois quero que tudo aquilo sobreviva em mim do jeito que eu conheci, que eu vivi, que eu curti, sem nem saber o que estava fazendo ou o momento histórico que estava vivendo. Imaginem um garoto como eu, quase criança, repórter dos Diários e Emissoras Associadas do incrível Assis Chateaubriand… Era demais.

Até porque, mais criança ainda, recém-chegado do interior, todos os dias acompanhava meu avô materno até a banca de jornais no bairro do Bom Retiro, onde ele ia comprar o seu jornal Diário de São Paulo, sua leitura obrigatória.

A redação dos Diários ficava no primeiro andar, fundos, digamos assim. Sim, porque a entrada do prédio era colossal. E hoje fica maior ainda na minha memória. Na parte da frente existiam elevadores que levavam para escritórios, parte administrativa e até estúdios da TV Cultura, canal 2. Para quem não sabe, a TV Cultura foi criada como uma “Emissora Associada”, ou seja, dos “Diários e Emissoras Associadas”. Quando nasceu tinha os tais estúdios na Sete de Abril, enquanto os estúdios da TV Tupi ficavam no Sumaré.

Lembro ainda que ao lado da redação dos Diários Associados, onde eram preparados os jornais Diário de São Paulo, bem tradicional, o Diário da Noite e o Diário da Noite, segunda edição, mais populares, ficavam os estúdios da rádio Difusora, especializada em notícias. Para se ver que ali funcionava o mundo da informação.

Meu Deus, quanta emoção, foi onde eu vivi o Jornalismo. Não tenho a mínima ideia do tamanho em metros quadrados de tudo aquilo. Só posso dizer que era um mundo. Um mundo de máquinas de escrever. Tic-tac-toc ou sei lá o barulho que faziam praticamente o dia inteiro enquanto repórteres, redatores, editores escreviam.

Dá para dizer que existiriam pra mais de cem máquinas de escrever? Acho que sim. Bem mais até, talvez. Uma loucura total. Barulheira incrível especialmente depois das cinco, seis horas da tarde. Das sete da noite em diante aquilo virava um inferno de som de toques e taques de máquinas de escrever. Eta inferno gostoso de se ouvir. Som de máquinas, barulheira de gente falando, gritando, explicando, ponderando. E seria possível escrever naquela bagunça? Não só era possível como era necessário. Toc-toc-toc e tome toc a noite inteira. Dá para perceber? Parece que eu estou ouvindo o barulho até agora…

Fora o barulho dos rolos das máquinas quando repórteres ou redatores tiravam o papel que continha os textos que acabavam de ser escritos… Rau-rau-rau… E ninguém se importava. Toc-toc-toc. Rau-rau-rau. Tinha repórter ou redator que escrevia duzentas mil palavras por minuto (exagero, claro…), mas escreviam feito máquina. Se hoje em dia algum repórter ou redator tentar escrever ou dedilhar uma máquina de escrever numa redação moderna será tocado a toque de máquina de escrever pro olho da rua.

Mas, quando todo mundo tinha escrito tudo do dia, quando todas as matérias tinham sido entregues para o secretário da redação, para os editores, para o editor chefe que nesta altura estaria desenhando ou editando a primeira página do jornal, quando todo o material já tivesse descido para as oficinas (sim, porque tudo era composto em linotipos, outra barulheira incrível…) e tal e coisa, quando tudo estava pronto, quando o jornal já estava nas rotativas, boa parte daquele pessoal estaria no bar da esquina tomando o último gole do dia, porque o último gole era sempre preciso diante de tanta correria.

Ainda bem que hoje teve notícia. Ainda bem que hoje teve acidente. Ainda bem que hoje caiu um presidente. Ainda bem que o mundo virou. Ainda bem que a notícia virou o mundo. Ainda bem que a gente é jornalista. Ainda bem.

Toc-toc-toc, saudade da máquina de escrever.

P.S.: Tempos depois, entre os anos de 1976 e 1985 (acho que foi isso…), voltei para as redações já como Editor Chefe do jornal Diário Popular que ocupou as instalações do jornal O Estado de São Paulo, ali na rua Major Quedinho, outro templo do Jornalismo. A grandeza era igual, a emoção a mesma, a barulheira das máquinas de escrever, o corre-corre, o vozerio, a fala-gritada… Tudo igual. A emoção até o último minuto, até a espera do jornal impresso nas poderosas rotativas. A gente ali, no bar da esquina. Saudade. Sempre saudade.

Por Edgard de Oliveira Barros

Perfil de Edgard de Oliveira Barros

Edgar de Oliveira Barros

O professor Edgard de Oliveira Barros está há 40 anos no jornalismo, tendo iniciado sua carreira na redação dos Diários e Emissoras Associadas, a maior cadeia de jornais, emissoras de rádio e de televisão que o Brasil já teve.

É bacharel em Direito pela Universidade Mackenzie, foi repórter de jornais Associados, tendo trabalhado também nas extintas rádio Difusora e TV Tupi. No meio do caminho teve a Propaganda e Edgard trabalhou na MPM Propaganda, para depois fundar a sua própria empresa de publicidade, através da qual ganhou vários prêmios.

Durante 10 anos foi diretor de redação do extinto Diário Popular. Deixando o Diário Popular começou a dar aulas na FACOM/UniFIAM no ano de 1986.

Criou o jornal Imprensa Livre na cidade de Atibaia, com circulação regional. Semanário, o jornal passou a diário tendo inclusive implantado seu próprio parque gráfico com modernas rotativas. Trabalhava no mínimo 18 horas por dia e todos os dias. Cansou.

E faltou dinheiro. Parou o jornal e voltou a dar aulas, sua paixão, na FIAM. Publicou três livros de crônicas e um livro-manual de Jornalismo dedicado aos alunos da escola: Quem? Quando? Como? Onde? O quê? Por quê?.

Acompanhe os textos do Professor Edgar publicados na página Mixtura Fina.

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