“O bom repórter é aquele que sabe observar”, afirma Carlos Dornelles

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“Eu nunca tive atração por outra função jornalística que não fosse reportagem", afirmou Carlos Dornelles. Foto: Emílio Coutinho
“Eu nunca tive atração por outra função jornalística que não fosse reportagem", afirmou Carlos Dornelles. Foto: Emílio Coutinho
“Eu nunca tive atração por outra função jornalística que não fosse reportagem”, afirmou Carlos Dornelles. Foto: Emílio Coutinho

Na última terça-feira, 21 de outubro, o jornalista e repórter da TV Record, Carlos Dornelles ministrou uma palestra durante a Semana de Comunicação realizada na FIAM FAAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado), com o tema “Bastidores das grandes reportagens”.

Logo no início da palestra manifestou sua alegria por estar entre os estudantes, e contou que pretende um dia ser professor. Defendendo os estagiários, afirmou que eles geralmente são mal vistos nas redações, pois ficam perguntando tudo e querem questionar as coisas. “Mas eu considero um sopro muito bem-vindo nas teias de aranha que existem nas redações. É para mim um sopro de esperança de que algum dia se mudará a forma como se faz jornalismo.”

Ironicamente, Carlos Dornelles disse ter o sonho de ser proprietário de um grande veículo de comunicação no qual pudesse mandar em centenas de jornalistas e que só fosse publicado o que ele, como dono, quisesse. Os jornalistas que não concordassem e quisessem reclamar de falta de liberdade de imprensa não teriam onde fazê-lo, pois até hoje não existe um Conselho Federal de Jornalismo.

Após contar esse “desejo”, ressaltou que era apenas uma metáfora para mostrar a situação do jornalismo atual, no qual apenas algumas grandes famílias (Marinho, Civita, Mesquita, entre outras espalhadas pelo Brasil), mandam. “Os cabeças dessas famílias acordam de manhã e decidem o que será notícia e o que não será. O jornalismo hoje é assim, e nós aceitamos que seja assim.”

Segundo ele, o Código de Ética dos Jornalistas desapareceu do convívio entre os jornalistas e se ele fosse respeitado, ainda que fosse por alguma lei que obrigasse que ele fosse cumprido, “não existiria imprensa no Brasil e todos os órgãos de comunicação fechariam”.

O lado ruim da Imprensa Brasileira

Dornelles também contou que os jornalistas gostam muito de criticar os outros, mas odeiam ser criticados. “Se você criticar um jornalista ou um órgão de imprensa, lá vem aquela velha história da defesa da liberdade de informação, quando na verdade, em 99% dos casos, não é aí que se aplica a liberdade de informação. É a liberdade do proprietário do meio de comunicação dizer o que ele bem entender.”

Ainda criticando o lado ruim da imprensa brasileira, ele explicou que um jornal deveria ser o resultado de um grupo de pessoas, sem objetivos econômicos ou políticos, por meio de um consenso de jornalistas, não de donos preocupados com o seu lucro, com seus interesses econômicos e políticos.

Mas infelizmente todos os grandes jornais, da primeira à última linha tem objetivos políticos. “Não é só a imprensa brasileira, mas é principalmente a nossa. Nós estamos em uma situação muito pior, o massacre de informação é incrível”, ressaltou.

Diante de um numeroso auditório de estudantes de comunicação, Dornelles apresentou seu ponto de vista sobre a imprensa brasileira. Foto: Emílio Coutinho
Diante de um numeroso auditório de estudantes de comunicação, Dornelles apresentou seu ponto de vista sobre a imprensa brasileira. Foto: Emílio Coutinho

Obrigatoriedade do Diploma

Questionado sobre a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, Dornelles explicou que durante muito tempo os donos dos meios de comunicação tentaram derrubá-lo, mas nunca conseguiram, até o dia em que um poderoso aliado chamado Gilmar Mendes fez o trabalho sujo.

Na sua visão, com o fim do diploma, os donos das empresas de comunicação conseguem controlar muito melhor as redações. “Quem disse que para escrever sobre economia você precisa de um economista, e que ele seria melhor que um jornalista? Quem disse que para escrever sobre política seria preciso ser um doutor em política pela USP? Pelo contrário, jornalismo não é escrever tratados.”

Desenvolvendo esse raciocínio, Dornelles esclareceu que “o jornalista deve ter o dom de saber o que é informação, ouvir os dois lados, que é uma coisa que na academia não se faz. É uma aberração dizer que você deveria colocar pessoas entendidas em determinados assuntos e não ficar preso às amarras do diploma”.

Impressionado com o grande número de jornalistas que é contra o diploma nas redações, ele diz que muitos deles são por comodismo e outros por ideologia, mas que felizmente isso cairá. “Não sei quando, mas voltaremos a ter o diploma.”

Contador de histórias

Tratando de sua carreira profissional, Dornelles afirmou não se considerar jornalista, mas apenas repórter. “Eu nunca tive atração por outra função jornalística que não fosse reportagem, e se tivesse que fazer alguma outra função jornalística eu trocaria de profissão.”

Esse seu entusiasmo pela reportagem foi visível na afirmação que fez logo a seguir no qual confessou que o que mais gosta de fazer no jornalismo “é contar histórias de pessoas que às vezes consideramos pequenas histórias”, mas “que são sempre grandes histórias”. “Tenho prazer de sair para a rua à procura de histórias”, disse.

Na sua opinião, as pessoas que são faladoras nem sempre se tornam bons repórteres. Os tímidos, desde que sejam bons observadores, se dão bem na reportagem. “O bom repórter é aquele que sabe observar.”

O importante, ainda segundo ele, é não achar que sabe tudo. Sempre existe algo que nós temos que aprender. Quem acha que já sabe de tudo acaba sendo tolhido da profissão.

Incentivando os estudantes de jornalismo presentes, Dornelles aconselhou-os a seguir a carreira jornalística, “porque é muito legal, e muito divertido, e é por isso que eu continuo fazendo senão eu já teria desistido”.

Por Emílio Portugal Coutinho

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