O disse me disse é o que menos importa

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Jornalista Nana Queiroz, idealizadora da campanha “eu não mereço ser estuprada”.
Jornalista Nana Queiroz, idealizadora da campanha “eu não mereço ser estuprada”.
Jornalista Nana Queiroz, idealizadora da campanha “eu não mereço ser estuprada”.

Uma pesquisa realizada pelo IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgou dados polêmicos, por assim dizer. Cerca de 65 por cento dos brasileiros concordam total ou parcialmente com a frase: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser estupradas”, lembrando que a maior parte dos participantes dessa pesquisa eram mulheres.

Aí você me pergunta: Como assim mulheres? Elas não queimaram os sutiãs em prol dos direitos, da igualdade, da liberdade? Eu te respondo sim, porém, entretanto e todavia, meu caro leitor, tem muita mulher machista por aí. Só que isso são outros quinhentos, é uma outra discussão. Ainda na questão da mulher poder isso ou aquilo, concordar ou discordar com esses dados, merecer ou não ser estuprada (não que isso devesse ser motivo de debate, porque a mulher não merece, nem ninguém merece ser estuprado e pronto), essa pesquisa além de revolta, indignação, incômodo, causou duas grandes consequências.

A primeira foi a indignação e comoção de mulheres (e homens) que insatisfeitos com o resultado dessa pesquisa resolveram se unir, protestar, dar a cara a tapa, ou, melhor dizendo, colocando o corpo a mostra em fotos e frases de protesto que se tornaram um viral na internet. A idealizadora dessa campanha foi a jornalista Nana Queiroz com um selfie de conteúdo que dizia: “eu não mereço ser estuprada”. As pessoas não só concordaram com a campanha como também aderiram o protesto em suas redes sociais. Isso é um exemplo típico de que devemos sim, comemorar a democracia e deixar o período da ditadura em um passado bem distante.

A segunda consideração importante é pensar como o resultado dessa campanha repercutiu em um “disse me disse”. Mas afinal de contas, quem é o culpado? Quem foi que disse? A pesquisa que foi mal formulada e, consequentemente, revelou dados tortuosos e duvidosos? A mídia que aproveitou um assunto polêmico para se alimentar e atrair o público? Ou a mulher que está no metrô de roupa curta ou longa indo para o trabalho?

Há quem defenda os dados da pesquisa. Há quem defenda a mulher com burca ou mini saia. Há quem critique, fale, reclame. Há quem culpe a pesquisa, o sensacionalismo da mídia e a mulher. Mas afinal de contas, será que não estamos esquecendo do principal culpado de tudo isso: o estuprador? Nesse disse me disse, joga a culpa para um, desvia, escorrega, passa a culpa para o outro. Parece o jogo da batata quente, quem ficar por último com ela na mão é queimado e fica fora do jogo.

Como jornalistas, precisamos apurar as informações com a maior quantidade de detalhes possíveis. Como cidadãos e seres humanos, precisamos nos conscientizar, sensibilizar e mobilizar para que esse quadro mude de alguma forma. Se pouca roupa fosse motivo de ser estuprado ou algum tipo de convite à incitação, não existiriam dados tristes com crianças e idosos (de sexo feminino ou masculino), sendo estuprados pelo mundo a fora.

A violência contra a mulher é algo sério, complexo e profundo. Uma pesquisa com esses dados merece mesmo ser comentada, debatida, questionada. Diante de um problema tão grave como esse em que as mulheres estão cada vez mais sendo atacadas no metrô, não devemos perder tempo com esse “disse me disse”. O problema está na boca do povo, na cabeça dos homens, em fotos, campanhas, redes sociais, na mídia e na pesquisa realizada pelo IPEA.

Jornalista bom é aquele que, além de averiguar a veracidade dos fatos, repassa essa história no rádio, na TV, no impresso, no online ou no meio da rua. Democracia se faz com liberdade de expressão, independentemente de quem diz. Ser livre é saber que você tem o direito de não ser estuprada, mesmo que esteja com uma saia curta.

Por Regine Luise

Perfil de Regine Luise

Regine Luise

Ama, doa, sonha, dramatiza, sorri, chora e escreve. Não necessariamente nessa ordem. Jornalista por profissão, poeta de coração. Prazer, Regine Luise.

Contato: [email protected]

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