Quero sair por aí reportando o mundo. Como faz?

0
28
Foto: Giovanna Maradei
Foto: Giovanna Maradei
Foto: Giovanna Maradei

Encontrar estudantes de jornalismo que sonham em se tornar correspondentes internacionais, ou ao menos realizar coberturas fora do país, é fácil. Difícil, é encontrar um jovem jornalista que saiba por onde começar.

Somando o domínio das agências de notícias, a forma com que os jornais lidam com a internet e, principalmente, a crise e a falta de dinheiro dos atuais veículos de comunicação, parece impossível desenvolver um plano de carreira perfeito que leve o jornalista em um voo sem escalas do estágio na editoria de Cotidiano à correspondência em Washington.

Não existe receita, é um fato; mas não necessariamente uma má notícia. Adriana Carranca, repórter especial do jornal Estado de São Paulo, por exemplo, acredita que “as redações dos jornais diminuíram, mas há um espaço imenso em outros veículos”. A profissional nos lembra que antigamente não haviam opções, era preciso estar em um grande jornal para ser lido pelo público, já hoje temos portais, blogs, projetos independentes, rede sociais… O negócio, segundo ela, é começar, é fazer.

Patricia Campos Mello, repórter especial da Folha de São Paulo, concorda com Carranca e revela: “Iniciativa é 80%. Se você chegar com um negócio pronto, ideia bacana, pauta legal, já sabendo como você vai fazer – os jornais topam”.

Foi o que fez, por exemplo, o correspondente Ariel Palácios, que trabalha hoje em Buenos Aires para a brasileira Globo News. No inicio de sua carreira, após alguns anos de cursos e muito estudo, o jornalista que sempre quis ser correspondente ofereceu seu trabalho para o jornal Estado de São Paulo, que na época não possuía nenhum profissional baseado na Argentina.

“Eles me disseram: ‘Veremos. Quando estiver instalado lá, telefone para a gente e proponha matérias’. Fui a Buenos Aires e comecei a escrever.”, contou o jornalista que trabalhou para o grupo Estado até o final de 2014 e admitiu que primeiro ano não foi nada fácil, “eram, uns dois ou três textos por mês.”, conta Ariel.

Fábio Zanini, que foi editor do caderno “Mundo” no jornal Folha de São Paulo, de 2010 a abril de 2015, também chama atenção para essa dificuldade e alerta: “Essas colaborações eventuais são um caminho também, mas um caminho mais frágil, até porque o espaço é pequeno e o orçamento para pagar as colaborações não é muito grande”; conclui o jornalista. Para ele a maneira mais “permanente e efetiva” de iniciar uma carreira ainda são os programas de treinamento.

“VOCÊ HOJE PODE FAZER QUALQUER COISA, O DESAFIO É COMO VOCÊ SOBREVIVE.”

Foi com essa frase, simples e direta, como todo jornalista deveria ser, que Adriana resumiu a situação enfrentada pelos jovens que estão ingressando nesta carreira. Hoje, as possibilidades são infinitas, já o dinheiro, nem tanto.

Segundo Zanini, os valores das viagens de cobertura internacional, por exemplo, dificilmente saem por menos de R$5 mil e podem chegar até a R$20 mil por pessoa. “É dinheiro. É caro, mas o jornal entende que é uma coisa importante para a sua imagem, para manter o leitor, para se diferenciar etc.”, explica o editor que acredita que são investimentos como estes que tornam possível a realização de matérias autorais, ou seja, feitas “com cuidado, profundidade e analise”.

Mas e quando você não está em um grande jornal? Neste caso, mais do que convencer um editor, você terá mesmo que investir. Uma maneira é organizar tudo por conta própria e tentar vender sua matéria. “Se você falar: eu tenho esta pauta aqui que é legal, já arrumei a viagem, já esquematizei a logística e está o mais barato possível, é um jeito de conseguir emplacar”, explica Patricia Campos Mello.

Outra forma é investir em um projeto próprio, “se qualquer um que está começando criar um site sobre um tema que ache importante, começar a apurar essa área, ele facilmente vai ganhar leitores que se interessam por esse assunto.”, afirma Adriana Carranca. A repórter lembra que para se fazer jornalismo é preciso praticar e acumular experiência, mas sem depender tanto dos veículos tradicionais.

“Acho errado você fazer as coisas de graça porque você quer publicar em um grande jornal. Se você vai fazer algo que você tem a possibilidade de investir, invista em algo seu”, defendeu a jornalista que fez sua primeira cobertura no Irã durante uma viagem de férias.

“Fui porque eu tinha curiosidade de ir para o Irã e depois acabei fazendo a matéria para o Estadão. A gente publicou lá e eles me pagaram os gastos com a reportagem. Eu tinha genuinamente curiosidade de conhecer o país porque para mim seria um aprendizado. Fiz sem pensar aonde eu ia publicar aquilo, mas como eu estava ligada ao jornal, acabei publicando lá”; explicou Carranca, que ainda completou: “Para você fazer reportagem, você não precisa mais esperar o convite do jornal, a não ser que você queira ir para uma área de conflito. Neste caso, ninguém deve ir sem estar sob a proteção de uma organização, porque realmente é muito perigoso”.

“O BRASIL É UM MUNDO DE MATÉRIAS, A GENTE NÃO PRECISARIA IR PARA LUGAR NENHUM”

Começar do começo pode parecer um conselho óbvio, mas mesmo assim Patricia Campos Mello fez questão de reforça-lo. A repórter lembra que nos últimos anos foi para Serra Leoa e para o Afeganistão, mas vibrou da mesma forma ao cobrir as passeatas de julho de 2013. Para ela não se pode negar que existe uma glamorização da cobertura internacional, mas essa atitude não faz lá muito sentido. “Desgraça lá fora é muito mais glamoroso do que aqui dentro. Não sei porque. Não deveria ser”.

Zanini também reconhece o glamour de fazer coberturas fora do país, mas lembra que a cobertura nacional não é só mais barata, é também mais relevante do que a internacional. “É evidente que uma chacina em Osasco é muito mais importante do que o massacre de 50 pessoas na Nigéria. O ideal é fazer as duas coisas, mas Osasco está aqui do lado, é uma coisa que nos diz respeito muito mais”, explicou o editor.

Nesse sentido, Adriana Carranca conclui sem meias palavras: “Quem gosta de jornalismo e gosta de reportagem, vai ter tanto prazer em fazer a reportagem na esquina de casa quanto na Síria. O que a pessoa tem que se perguntar é se ela quer fazer reportagem ou se ela quer viajar. Se ela quer viajar é melhor ela procurar outra profissão, porque tem outras carreiras que vão te prover disso melhor do que o jornalismo”.

Por Giovanna Maradei

Perfil da autora

Giovanna Maradei

Repórter em formação, Giovanna Maradei (24) é formada em publicidade pela ESPM e está no último ano do curso de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Tem interesse em realizar coberturas nacionais e internacionais, especialmente quando os assuntos são direitos humanos, cultura e/ou tecnologia. Como estagiária passou pelas redações das revistas Pais&Filhos, Crescer e Casa e Comida. Hoje colabora com o blog Casar, descasar, recasar hospedado na Folha de São Paulo.

Twitter: @GiMaradei

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui