Roda de Conversa com os Vencedores do 36º Prêmio jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos

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No dia 29 de outubro de 2014, as 9h, aconteceu, pelo terceiro ano consecutivo, uma roda de conversa com os ganhadores do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos deste ano, no Tucarena, em São Paulo. A conversa foi mediada pelos jornalistas Aldo Quiroga (TV Cultura / PUC) e Angelina Nunes (jornal O Globo / ABRAJI).

Estavam presentes Robson Vilalba (jornal Gazeta do Povo – Curitiba), Marcelo Carnaval (jornal O Globo – RJ), Rosanne D’Agostinho (Portal G1), Leonencio Nossa (jornal O Estado de S. Paulo), Juliana Dal Piva (jornal O Dia – RJ), Herbert Araújo (rádio CBN – João Pessoa), Michelle Trombelli (rádio BandNews FM – SP), Ana Pompeu (Correio Brasiliense), Edson Sardinha (revista Congresso em Foco – Brasília), Tiago Mali (Revista Galileu), Erick Araújo e Marcos Jorge Barreto (TV ALMG – Assembléia Legislativa de MG), Monica Marques e Bette Luchese (TV Globo – RJ), Bianca Vasconcelos e Gustavo Minari (TV Brasil – EBC), Valmir Salaro e Alan Graça Ferreira (TV Globo – Fantástico) e Cláudio Renato (Globo News). Além dos vencedores, estava presente também Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu um olho ao ser atingido por uma bala de borracha nas manifestações de junho de 2013.

Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos 1

Marcelo Carnaval (jornal O Globo – RJ), vencedor na categoria de FOTOGRAFIA, comentou sobre o uso de equipamentos de segurança para jornalistas. “[O equipamento] é essencial. Tivemos baixas nas manifestações, como a morte do Santiago e o caso do Sérgio Silva, que perdeu um olho. […] O equipamento também serviu muito para nos confundir com outras pessoas. Qualquer pessoa que fosse conhecida da TV seria alvo de arremesso de lixo, de lixeiras e de agressão.”

“Eu repensei valores pessoais o tempo inteiro quando fiz essa matéria”, disse Rosanne D’Agostinho (Portal G1), vencedora do prêmio na categoria INTERNET. Sua matéria, intitulada “Dias de Intolerância”, aborda os linchamentos. Segundo Rosanne, uma das maiores dificuldades para a produção dessa matéria foi a falta de estatísticas sobre linchamentos no Brasil. Após analisar 50 casos de linchamentos no Brasil, concluiu que esse tipo de agressão geralmente ocorre em populações em que as pessoas se conhecem.

Ao fazer o perfil de uma advogada, o jornalista Edson Sardinha (Congresso em Foco – Brasília), vencedor na categoria REVISTA, teve a ideia de produzir uma reportagem sobre pessoas que são juradas de morte no país. Afirmou que, atualmente, há mais de duas mil pessoas juradas de morte no Brasil, e grande parte destas encontram-se sob proteção do Sistema Nacional de Proteção a Pessoas Ameaçadas, que se divide em três frentes atendidas pelo Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM), Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita) e Programa Nacional de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH). Edson concluiu que 80% dos ameaçados são indígenas, negros, trabalhadores rurais e pessoas de baixa escolaridade. “São pessoas muito carentes. Não no sentido financeiro, mas no sentido de serem ouvidas”, finalizou Edson.

Erick Araújo e Marcos Jorge Barreto (em parceria com Tatiane Fontes, Priscila Martins Dionízio e Leandro Matosinhos – TV ALMG / ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE MG), vencedores na categoria TELEVISÃO: DOCUMENTÁRIO, afirmaram que o documentário – que se passa em Governador Valadares – narra perseguições aos ditos comunistas e a destruição de um jornal que apoiava os trabalhadores rurais. A ideia do documentário teria surgido após uma frase do sogro de Erick, que afirmava que o golpe de 64 teria se iniciado em Governador Valadares.

“O crime político não é um crime comum. Não mata um ser humano, apenas. Mata uma discussão, uma política”, afirmou Leonencio Nossa (jornal O Estado de S. Paulo). A matéria de Leonencio, intitulada “Sangue Político”, foi vencedora na categoria JORNAL e levou 17 meses para ficar pronta, além de ter sido necessário que Leonencio visitasse 14 estados. Em sua matéria, definiu que existem seis tipos de crimes políticos, e não dois, como se costuma classificar.

Vencedores do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos durante a roda de conversa em São Paulo. Foto Karine Seimoha.
Vencedores do prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos durante a roda de conversa em São Paulo. Foto Karine Seimoha.

“O gravador inibe muito. Você tem que conduzir a conversa de maneira a que ele [a fonte] não perceba o tamanho das revelações que ele está fazendo”, declarou Juliana Dal Piva, vencedora da menção honrosa na categoria JORNAL, pelo trabalho intitulado “As Confissões do Coronel Malhães”. Juliana coleta informações sobre os casos de desaparecidos na ditadura há seis anos, e afirmou que as maiores dificuldades são a escassez de fontes vivas e dispostas a falar e a quase inexistência de documentos do período.

Com apenas três anos de carreira, Ana Pompeu (Correio Brasiliense) já conquistou uma menção honrosa na categoria JORNAL, com seu trabalho sobre a ditadura no Brasil, intitulado “Mapa da Ditadura em Brasília”. Ana afirmou que a Comissão Nacional da Verdade da Universidade de Brasília (UnB) tem ajudado muito nas investigações sobre o período da ditadura militar, pois a universidade sente-se responsável por recuperar a história da ditadura e do golpe. Destacou que a UnB foi criada para ser a base da educação de vanguarda no país, mas esse objetivo foi corrompido pelo golpe de 64. Ana disse ainda que teve que se esforçar muito para produzir essa matéria, por causa de seu pouco reconhecimento no meio jornalístico.

Tiago Mali (Revista Galileu), vencedor da menção honrosa na categoria REVISTA, afirmou que ao publicar a reportagem sobre agrotóxicos, intitulada “Envenenados”, foi procurado pela assessoria de imprensa de uma produtora de agrotóxicos dizendo que não foram encontrados erros em sua matéria que pudessem garantir o direito de resposta à empresa.

Levada ao Haiti pelo Exército Brasileiro, Michelle Trombelli (rádio BandNews FM – SP), vencedora de menção honrosa na categoria RÁDIO, relatou um pouco de sua experiência naquele país junto à MINUSTAH, que completou dez anos em 2014. Enquanto estava no Haiti, procurou descobrir se o investimento feito pelo Brasil, cerca de dois bilhões de dólares, está dando resultados.

Bianca Vasconcelos e Gustavo Minari (TV Brasil – EBC) foram vencedores da menção honrosa na categoria TELEVISÃO: DOCUMENTÁRIO. Relataram no trabalho “A Pele Negra” as dificuldades que pessoas negras enfrentam, como o baixo índice de adoção de crianças negras e a violência e o preconceito sofridos.

Mônica Marques e Bette Luchese (TV Globo – RJ), vencedoras na categoria TELEVISÃO: REPORTAGEM, com a reportagem “Caso Amarildo”. Mônica afirmou que, quando estava apurando as informações para esta reportagem, distribuía cartões de visita na favela da Rocinha e pedia para as pessoas ligarem, sem a necessidade de identificação, para contar-lhe histórias de torturas e abusos sofridos na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Mônica descobriu que grande parte da população não sabia que aconteciam torturas e abusos como afogamentos, choques elétricos nas genitálias e agressões sexuais com cabos de vassoura na UPP. Bette Luchese afirmou que foi necessário muito cuidado com esse caso para evitar um linchamento moral.

O trabalho “Tortura na Fundação Casa”, realizado por Valmir Salaro e Alan Graça Ferreira (TV Globo – Fantástico), vencedor da menção honrosa na categoria TELEVISÃO: REPORTAGEM, aborda os abusos que menores infratores sofrem na Fundação Casa. De acordo com Alan, a reportagem recebeu muitas críticas dos telespectadores. Valmir denunciava há 30 anos abusos cometidos pela polícia, e disse que sentiu-se aliviado ao ver o vídeo da reportagem, pois finalmente teria como provar que há tortura na Fundação Casa.

Em caráter extraordinário, foi concedido o Prêmio Hors Concours, pela contribuição da reportagem “A Sentença – 35 Anos” à recuperação de fatos históricos que envolveram o trajeto jurídico do caso Vladimir Herzog, a Cláudio Renato e equipe (Globo News). “Falar de Herzog é recuperar essa história”, afirmou.

Convidado especial, Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu um olho ao ser atingido por uma bala de borracha enquanto fotografava uma manifestação em junho de 2013, disse que se sente um torturado. E que a tortura, para ele, não terá fim. Por fim, mostrou indignação pelo fato de Alex Silveira ter sido considerado culpado pela Justiça por ter sido alvejado no olho, e comentou a campanha feita por fotógrafos e jornalistas, em que estes fizeram fotos usando um tapa-olho.

A roda de conversa foi transmitida ao vivo pelo Portal Cmais+ da TV Cultura, pela TV dos Trabalhadores e pela PUC TV. Contou com o apoio da ABRAJI, Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da USP, Hospital Premier, Oboré Projetos Especiais, Repórter do Futuro, Rádio Brasil Atual, Fundação Padre Anchieta / TV Cultura, TV dos Trabalhadores, PUC TV, OAB – SP, TV Câmara – SP, IPDF, Instituto Vladimir Herzog e FEPESP.

Por Karine Seimoha.

Perfil da Autora

Karine Seimoha

Karine Seimoha tem está no segundo semestre do curso de Comunicação Social – Jornalismo, nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM FAAM). Apaixonada desde sempre por livros e conflitos armados, acredita no jornalismo independente e no poder transformador das palavras. Quer mudar o mundo e encontrou no jornalismo uma maneira de fazer isso.

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