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Como fazer a cobertura de tragédias

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Boate-Kiss

O terrível incêndio em uma discoteca em Santa Maria (RS) [ocorrido no dia 27 de janeiro de 2013] levantou a dúvida sobre como os jornalistas de TV devem agir nessas horas. O instinto dos repórteres é o de buscar informações e repassá-las o mais rápido possível por meio de suas emissoras. Número de mortos, feridos e sobreviventes é o principal, assim como o trabalho de resgate e causa do fogo. Mas, o jornalista pode (e deve) fazer muito mais nessas horas: informar para quais hospitais as vítimas foram levadas e (quando solicitado pelas autoridades) a necessidade de doadores de sangue e voluntários, além de cumprir seu compromisso com a sociedade, pressionando os órgãos competentes sobre investigações, autorizações vencidas, fiscalizações na boate e a busca pelos responsáveis e co-autores da tragédia.

Trabalho em equipe

Quando uma tragédia acontece, as emissoras tendem a concentrar suas coberturas no assunto. Na redação, os apuradores, pauteiros e produtores ligam para suas mais diversas fontes: Bombeiros, Polícia, Defesa Civil e especialistas como médicos, técnicos de segurança e até psicólogos – que poderão explicar, por exemplo, a reação de uma multidão frente a um incêndio em ambiente fechado.

Os apresentadores de plantão se preparam para entrar ao vivo a qualquer momento, lendo as últimas informações apuradas e o que mais puder saberem do assunto. Geralmente, entrevistados são convidados a participar dos programas o mais rápido possível. Um carro da emissora vai até a casa deles para buscá-los e levá-los ao estúdio. Uma gentileza que já tirou muitos comentaristas de suas casas, em horários de folga.

Em grandes emissoras, diversas equipes são destinadas para o local da tragédia, geralmente com pautas parecidas: enquanto uma fica responsável por cobrir o trabalho de resgate, outra vai para os hospitais ou para a delegacia, já que mandados de prisão poderão ser expedidos e cumpridos, ou seja, alguém pode ser preso e ser responsabilizado pela tragédia.

O que fazer na rua?

O repórter em campo são os olhos e ouvidos da redação. No local da notícia há muito mais condições de saber detalhes importantes do socorro as vítimas, do trabalho de rescaldo, sobre o que foi destruído, falhas visíveis, etc. O jornalista precisa ter contato direto com o comando das operações, conversar sempre que possível com comandantes da PM, Bombeiros e Defesa Civil (sem atrapalhar o trabalho deles), além de falar com populares, voluntários e parentes das vítimas – sem constrangê-las ou pressioná-las.

Há uma concentração de fontes nessas horas e todas devem ser ouvidas. Muitas informações vão se desencontrar, mas isso é natural num primeiro momento. Atualizar fatos e os números (de vítimas, de soldados, de voluntários) é primordial. Abastecer os colegas da redação com novas informações é outra função do repórter, que também pode receber indicações importantes da “base”, como a chegada de reforços do exército ou a visita de uma autoridade ao local – assim, a equipe pode antecipar-se a essas novidades.

Reconhecimento

Apesar da carga negativa de se cobrir tragédias como a de Santa Maria, coberturas jornalísticas desse tipo podem revelar talentos na arte de informar (desde que esse não seja o foco durante a cobertura). Por conta da repercussão da notícia, o repórter é solicitado com mais frequência e, assim, mostra mais vezes o seu trabalho (até mesmo em rede nacional). O mesmo acontece com os outros colegas da equipe, como o cinegrafista.

Exagero desprezível

Algumas emissoras pecam pelo sensacionalismo em nome da audiência. Focam em entrevistas com familiares das vítimas – pessoas desesperadas, desorientadas, atordoadas, tomadas de dor e sofrimento e que mal têm consciência do que estão fazendo ou falando. Estão alterados psicologicamente… e os repórteres sabem muito bem disso. Sabem também que cenas banhadas de lágrimas e choro comovem mais, sensibilizam por demais, prendem de forma assombrosa boa parte da atenção dos telespectadores. E a busca por alguns pontos a mais no IBOPE faz com que algumas editorias “enfiem o dedo na ferida”, explorem esse lado fragilizado das vítimas, abracem o lado podre do trabalho jornalístico. Resta ao público mover-se contra esse tipo de conduta da imprensa, mudando de canal e repudiando essa prática.

Ainda bem que aquelas imagens mórbidas, de corpos carbonizados, não entraram nos telejornais (pelo menos os que eu vi). Isso seria uma apelação descabida. Mas, infelizmente, basta alguns cliques para satisfazer a curiosidade macabra de quem não tem mais o que fazer na internet.

Por Thiago Moraes

Perfil de Thiago Moraes

Thiago Moraes
Repórter e apresentador de telejornais, Thiago Moraes (31) trabalha com jornalismo televisivo desde 1996, quando iniciou na área técnica (atrás das câmeras). Formou-se em jornalismo pelo UNIFAE, em 2005, na cidade natal (São João da Boa Vista-SP). Pós-graduado em Linguagens Midiáticas e pós-graduando em Jornalismo Econômico pela PUC-SP. Thiago Moraes é autor de mais de 3 mil reportagens televisivas e também escreve para o blog TELE BLOG NEWS – Bastidores do jornalismo em TV.

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Thiago Moraes
Repórter e apresentador de telejornais, Thiago Moraes (31) trabalha com jornalismo televisivo desde 1996, quando iniciou na área técnica (atrás das câmeras). Formou-se em jornalismo pelo UNIFAE, em 2005, na cidade natal (São João da Boa Vista-SP). Pós-graduado em Linguagens Midiáticas e pós-graduando em Jornalismo Econômico pela PUC-SP. Thiago Moraes é autor de mais de 3 mil reportagens televisivas.
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