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Rachel Sheherazade e a opinião no jornalismo

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Rachel Sheherazade. Foto: Divulgação.
Rachel Sheherazade. Foto: Divulgação.

A notícia da Rachel Sheherazade estar afastada da bancada do jornal SBT Brasil, saltou os olhos. Em tempos onde as pessoas tem relembrado e comemorado (ou não) o meio século sem ditadura militar no Brasil, uma jornalista ser afastada do seu cargo por justamente emitir opiniões, expressar sentimentos e sensações, cutucar feridas e dizer verdades, é um tanto quanto contraditório, não acham? Sim, não, talvez.

Há tempos vem se questionando qual é o limite da verdade? Até onde um jornalista pode ser formador de opinião sem ter seus pensamentos editados? A liberdade de expressão realmente existe? E os interesses políticos onde ficam?

Receio que para tantas e tantas perguntas, especialistas de todas as áreas devem se rebater todos os dias para encontrar possíveis respostas ou até soluções. Eu que não tenho respostas concretas para tudo isso, prefiro dizer que a liberdade de expressão vai até a página 2, ou, até onde convém o veículo de comunicação. Me arrisco ao dizer que existe uma cortina de fumaça e um tapete, que esconde toda e qualquer falcatrua como em um passe de mágica.

Acho que todos nós aprendemos ainda dentro da Universidade a expressar nossas opiniões e fazer o nosso trabalho respeitando principalmente limites morais e éticos. Aqui, entra novamente a figura da jornalista Rachel Sheherazade, que ficou conhecida por expressar opiniões polêmicas.

Um dos papéis do jornalista é sim cutucar a ferida alheia. Encontrar e denunciar um problema, uma causa, uma ação duvidosa. Jornalista que se preze emite suas opiniões baseado na verdade, com o objetivo de dar voz aos que não podem falar, abrir os olhos daqueles que não podem ver. Jornalista de verdade é quem leva informação ao público com o objetivo de alertar, ajudar, informar. Jornalista não é estrela, não quer status, não quer (ou não deveria querer ser) famoso.

Como em qualquer lugar ou profissão tem quem goste e discorde. Quem aplauda, defenda ou repreenda. Quem incentive ou quem critique. Do outro lado da tela, como telespectador, vemos e ouvimos opiniões fortes e polêmicas. Polêmicas por se tratarem de assuntos de grande relevância e que atingem diretamente várias classes sociais. Se a Rachel, só falasse em prol da classe A, se não cutucasse, se não falasse o que pensa, provavelmente não teria sido afastada. O problema da Rachel foi ter sido uma boa aluna na faculdade e ter cutucado onça com vara curta, ter mexido na gravata do político errado ou mesmo ter lançado pedra no vespeiro de abelhas.

É claro que quem ler esse artigo, vai discordar ou concordar comigo. Na figura de colunista, recém formada em jornalismo e ser humano, como qualquer um, expresso minhas opiniões. Afinal de contas, estamos ou não em tempos de democracia e liberdade de expressão? Não sei. Talvez o caso de Sheherazade nos traga algum tipo de resposta, é melhor ficarmos atentos.

Mas nem só de omissões, de conseguir expressar o que pensamos ou de mortes (como as pesquisas tem demonstrado mundo a fora), é feito o jornalismo. Existem vários pontos positivos e que fazem por valer a pena, cursar jornalismo na faculdade.

Ser jornalista é poder ouvir uma história e depois repassá-la. No rádio, na TV, no impresso ou no online. Ser jornalista é conhecer pessoas, culturas, lugares, momentos, vidas. Ser jornalista é estar sensível e atento porque a notícia pode surgir do nada, inclusive de uma flor no meio do asfalto. Ser jornalista é ter olhos de coruja, é ser uma pessoa curiosa e, na minha opinião ser sensível ao ouvir o outro. Jornalista antes de tudo precisa ser humano.

É como disse o editor executivo e colunista da revista Época, Ivan Martins: “se você não se interessa pelos outros, dificilmente vai ser um bom jornalista”.

Por Regine Luise.

Perfil de Regine Luise

Regine Luise

Ama, doa, sonha, dramatiza, sorri, chora e escreve. Não necessariamente nessa ordem. Jornalista por profissão, poeta de coração. Prazer, Regine Luise.

Contato: [email protected]

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1 COMENTÁRIO

  1. Bom, farei uso da minha “liberdade de expressão” então. Rachel Sherazade não foi afastada do cargo por “emitir opiniões, expressar sentimentos e sensações”, foi afastada ( se é que foi mesmo afastada, já que ela nega) porque seus comentários violaram os direitos humanos, e mais: Consta no primeiro artigo da Constituição Federal a questão do respeito “à dignidade da pessoa humana”. Ao incitar a violência, convocar o cidadão a ir para as ruas e “resolver” o que o Estado e a polícia são incapazes de resolver, Rachel Sheherazade feriu de forma grave a Constituição. Vale lembrar que as atitudes da jornalista renderam inclusive uma nota de repúdio do próprio sindicato dos jornalistas.

    “Cutucar feridas e dizer verdades”… Que feridas? Que verdades? A discussão sobre o que é ou não verdade nos levaria a horas a fio de debate. Só gostaria de ressaltar que a “verdade” está muito mais relacionada a pontos de vista. Não existe uma verdade. Quanto a cutucar feridas, questiono: As feridas de quem? Pergunto em que as opiniões emitidas pela jornalista enriquecem o debate, estimulam a transformação e prestam qualquer tipo de serviço à comunidade. Convocar justiceiros é um retorno à barbárie e, pelo que me consta, é contra a barbárie que a imprensa deveria se posicionar.

    Sejamos realistas. Muitos ainda tendem a aceitar o que é dito nos telejornais como sendo verdades. Isso dá ao “formador de opinião” uma responsabilidade maior do que se imagina. Ela é Âncora, transmite notícias factuais e do nada começa a despejar sua opinião, misturando notícia e comentário. Eis que a confusão está formada! Temos exemplos lamentáveis de como a imprensa pode as vezes cometer erros fatais e levar toda a sociedade a crer em inverdades. Quando essa senhora se apresenta como fiel defensora da família e dos “homens de bem”, ela assume um papel quase messiânico, e podemos imaginar o fim de tudo isso. A liberdade de expressão, para jornalistas ou para qualquer pessoa, não está acima da constituição. Sua opinião não é e nem nunca será maior do que é assegurado pela lei.

    Não sei do histórico acadêmico de Rachel Sherazade, tampouco me importa se ela foi uma boa aluna ou não. O fato é que sim, ao contrário do que aponta seu artigo, ela só fala em prol de determinada classe. Sinceramente não acredito que vá acontecer muito mais do que este afastamento, e esta é uma situação a qual nos acostumamos em terras brasileiras. Quando se defende os interesses ideológicos, políticos e econômicos de determinada classe, quando se contribui para a manutenção destas pessoas no poder, legitimando suas ações através do endosso de uma jornalista em cadeia nacional, dificilmente há consequências maiores. O problema de Sherazade não foi mexer na “gravata de político”, foi macular a história e invalidar centenas de anos de opressão e desigualdades sociais no Brasil a partir de um comentário superficial e elitista. O tipo de comentário de quem vive em uma bolha, ignorando a realidade à sua volta e em nada colaborando para sua melhoria.

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